Considerações Finais: Temporada de Inverno 2019

Considerações Finais: Temporada de Inverno 2019

Kaze ga Tsuyoku Fuiteiru

A combinação Production I.G e animes com temáticas esportivas parece funcionar mais uma vez, entregando o anime sobre corrida que nunca soubemos que queríamos.

O maior desafio de KazeTsuyu foi com certeza trabalhar os dez personagens que faziam parte da equipe, de forma que não limitasse cada um a ser algum arquétipo ou ter algum traço de personalidade que apenas lembrasse ao público que ele existia. Por boa parte do anime, as motivações dos personagens pareciam rasas e se ancoravam muito no carisma e personalidade forte de Haiji. Mas aos poucos a dinâmica entre eles vai fortalecendo a identidade de cada um. Entendemos que Ouji, por mais sedentário e desmotivado que seja, anseia pela ideia de fazer parte de uma equipe e fortalecer os laços com seus companheiros – algo que ele tanto viu em mangás de esporte. Que Nico-chan-senpai está voltando a entender o que fazia ele, como um ex-atleta, se sentir tão bem correndo. E são motivações como essas que acabam sendo transmitidas para o resto da equipe, que aos poucos deixam de seguir o sonho de Haiji e definem seus próprios objetivos.

A maratona Hakone Ekiden não foi só o ápice de todo o esforço que os personagens colocaram como equipe, mas também em estabelecer cada um deles como individuo e o que tiraram daquela experiência. Personagens como King, que entendiamos mais a situação em que ele estava sendo colocado do que suas motivações, tiveram espaço para serem desenvolvidos e demonstrar que aquela experiência não era apenas uma forma de provarem que eram capazes, mas uma forma de consolidar o relacionamento entre eles. De criarem boas lembranças em um momento de suas vidas que tanto anseiam por isso.

Nunca foi importante (ou até plausível) eles ganharem a maratona, e o anime nunca nos passou essa impressão. O questionamento filosófico de “o que é correr?” tinha mais peso na decisão dos personagens em percorrer esse trilho árduo de treinamento incessante. Por mais que ainda existisse a ideia do time underdog ascendendo ao topo como uma das temáticas, o que importava era o que cada um iria tirar daquela experiência e levar para sua vida. E esse era o topo da Hekiden que desejavam alcançar.

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Kakegurui xx

Kakegurui talvez não seja o anime mais ambicioso em tentar criar tensão com apostas empolgantes e situações em que os personagens precisam achar soluções imprevisíveis, mas entende que seu forte está na forma como tudo é apresentado. O que torna Kakegurui um anime divertido de acompanhar é o fato de que tudo é ditado pelo exagero, seja nas expressões das personagens ou em poses excêntricas, bem como todo o conceito por trás de cada jogo.

Mesmo dentro dos exageros, Kakegurui ainda entende a importância em focar no lado emocional das personagens e não reduzi-las a apenas caricaturas. A segunda temporada constrói arcos mais interessantes em que as apostas servem não mais como apenas uma forma de caracterizar Yumeko como uma viciada em apostas e sua insanidade ao tomar decisões arriscadas, mas sim em desenvolver suas ex-rivais. O que está em jogo em boa parte das apostas são as convicções das personagens, que pouco se importam com a eleição, e, de certa forma, como Yumeko é uma influencia em tomarem os riscos necessário para se provarem.

Considerando que os dois últimos episódios são fillers, talvez seja mais justo colocar o arco da Yumeko contra Sayaka como o verdadeiro finale, pois certamente foi o grande ápice da temporada. Também é interessante notar que ele deveria ter sido o primeiro arco, continuando diretamente de onde a primeira terminou, então nota-se a importância dada a ele pela produção do anime (que era até mesmo referenciado na primeira abertura). A relação de Sayaka com Kirari, a suposta maior antagonista da série, tem seu clímax quando ela demonstra seu sentimentos por Kirari e, como prova final, se joga para o que ela acredita ser a morte certa. Como alguém que sempre viveu pela lógica, ela sempre ansiou pelo imprevisível, por alguém que ela não conseguisse entender de uma forma racional. E é o que Kirari demonstra mais uma vez ao pular ao seu lado, revelando que também ansiava pelo seu oposto – alguém que não conseguisse fugir de tomar decisões lógicas. A relação das duas toma um rumo muito mais afetivo, que, assim como outras personagens nessa temporada, passam de personagens que surgiram apenas como antagonistas de Yumeko e tomam o palco principal.

Praticamente alcançando o mangá, uma terceira temporada não deve sair nem tão cedo. Tivemos algumas pistas sobre o passado de Yumeko, mas ainda há muito o que ser explorado sobre ela, que permanece mais como o conceito de personagem que toma riscos absurdos por sua personalidade psicótica. É o que faz Kakegurui funcionar por um lado, mas se a história vai continuar por tempo indeterminado, tentar estabelecer o que a tornou assim é o rumo mais natural.

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Mob Psycho II

A segunda temporada de Mob foi certamente um acontecimento. Reunindo vários dos maiores talento da indústria (e se despedindo de alguns), o nível de produção foi algo inimaginável para uma série de TV. Cada episódio tinha seu charme e sempre parecia se superar em comparação com o anterior, num espetáculo visual carregado por uma forte direção e um material original com bastante potencial.

Com um foco muito maior no desenvolvimento individual de Mob, que agora não apenas reage à situações ao seu redor, seu crescimento agora surge do fato de cada vez mais refletir sobre seus poderes e em que posição aquilo o coloca. Ele começa a entender que suas circunstâncias de vida são especiais e que ele precisa agir com mais responsabilidades. O experimento social que Mogami o faz viver por meses também o faz perceber o quão grato ele deve ser por ter pessoas que o apoiam ao seu redor e o que torna todos especiais para alguém – assim como a capacidade de mudar inerente de cada um. Isso muda não só a forma como Mob encara sua vida, mas também a  sua relação com outras pessoas, que às vezes só precisam de alguém que as faça perceber que podem ser diferente – e como ele pode ser esse alguém.

A relação entre Mob e Reigen também se torna mais complexa por conta disso. Ele não pode mais depender do seu mestre ditando tudo o que ele deve fazer. Por mais que Reigen tente se aproveitar da sua inocência para explorá-lo no seu trabalho, ele genuinamente se importa com Mob e acha que sabe o que é melhor para ele. Na sua arrogância em compreender a psiquê humana que desenvolveu para aplicar golpes, Reigen acaba sendo um grande obstáculo no crescimento e independência de Mob. Mas aos poucos vamos entendendo que Reigen, um personagem que só se mostrava ao público como alguém confiante de si, na verdade, é um adulto frustrado que quase desistiu de tudo, e que sua relação com Mob é algo tão importante para ele quanto o inverso.

O finale da segunda temporada evoca todo o crescimento de Mob e a forma como ele aceita seu papel naquilo tudo. Diferente do que vimos no finale da primeira temporada, agora, ele não pode mais passar a responsabilidade para Reigen, porque entende que seus poderes também são uma forma de comunicar seus sentimentos. Ele criou coragem depois do seu embate com Mogami, que também lhe ofereceu o conselho de como nem sempre ele vai conseguir persuadir alguém apenas por doces palavras e seus sentimentos puros. Suzuki, o último boss, se demonstra uma antítese dele por ter se deixado consumir pelos seus poderes excepcionais e na forma como aquilo o isolou de laços. Entretanto, assim como é evidenciado no arco de Mogami, ainda existe a possibilidade de Suzuki ser um reflexo do que Mob pode se tornar, e ele quase se deixa ser consumido momentaneamente pelo seu poder. Mas um olhar de relance na expressão de seu irmão Ritsu é o suficiente para que ele perceba o quão errado é aquela sensação – e o que ele pode fazer com aquilo caso o consuma. Os laços de Mob não são o que o fazem ter mais força para derrotar Suzuki como em um trope de shounen clássico, mas são o que fortalecem suas convicções e que, por fim, o faz ficar ao lado de Suzuki quando ele se transforma numa casca vazia para seus poderes e que, eventualmente, o faz mudar.

Shigeo entende que não é mais um “mob”, e sim o protagonista da sua própria história (algo que Reigen reforçava da sua maneira desajeitada), carregado de responsabilidades e com experiências que o qualificam como alguém capaz de ajudar aqueles em situações parecidas com a sua. Ele pode ter dado seus poderes para Reigen resolver a situação na primeira temporada, mas agora ele toma seu manto e percebe que só ele é capaz de tocar pessoas como ele.

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Tensei shitara slime datta ken

Talvez o que muitos considerem uma decepção por ter supostamente tido seu ápice no meio da série, TenSura conseguiu me prender até o final e me agradar nos aspectos que sempre me chamaram atenção nele. Talvez porque a série nunca tenha me vendido a ideia de ser uma aventura épica em que os protagonistas teriam que lutar batalhas grandiosas (como as aberturas gostavam erroneamente de vender), mas sim de que todas as situações poderiam ser resolvidas diplomaticamente e com esforço coletivo. Afinal de contas, não havia nenhum desafio para Rimuru e seus companheiros por boa parte da série e, por mais bem animadas que fossem as batalhas, eram extremamente previsíveis.

Por boa parte, o anime funciona como uma boa comédia, subvertendo alguns clichês de fantasia pela graça. Mas o arco da Shizu e a forma como se desenvolveu a ideia da “pessoa prometida” – ou, em termos de light novel, a “main heroine” – foi onde a série conseguiu ser realmente surpreendente e demonstrar que seria capaz de desenvolver dramas tocantes mesmo dentro de uma premissa um tanto boba.

Embora eu não me incomode na forma simplista como os grandes conflitos eram resolvidos, certas soluções foram muito convenientes no último arco, que também foi bastante apressado para concluir nessa temporada. Tudo pareceu bem artificial para fechar a história daqueles personagens, então tivemos pouco tempo para conhecer o grupo de alunos de Rimuru, e menos ainda para se importar com seus dramas.

Mas bem, eu falo como alguém que nunca jogou nenhum Dragon Quest, mas que adora Dragon Quest Builders. Não porque eu não goste de grandes aventuras, mas porque a ideia de se criar uma nação do zero, reunindo os recursos e as capacidades individuais de cada personagem, é tão gratificante quanto.

O final do anime conclui basicamente tudo exceto a rixa herdada de Rimuru com Leon, o “Demon Lord” que trouxe Shizu para aquele mundo e supostamente a fez sofrer tanto. Mas não é algo que parece tão necessário para a conclusão da relação de Rimuru com Shizu, e não me deixa tão motivo para acompanhar a já anunciada segunda temporada. Mas quem sabe até lá não mude de opinião.

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Yakusoku no Neverland

Desde que tomei ciência de Yakusoku no Neverland, sempre foi uma obra que me passava sentimentos conflitantes. Embora achasse a premissa interessante, a execução me parecia extremamente desafiadora. Agora, ainda com algumas ressalvas, tenho mais confiança de que o autor consiga carregar essa história para um rumo interessante.

Talvez o que faça Neverland funcionar bem é a forma como ele tenta explorar ao máximo a ideia de todos os personagens fazerem parte de uma família. A construção de confiança entre eles é algo que já está consolidada pelo fato de todos terem crescidos juntos e nutrido um carinho especial. Todo o plano de fuga só é funcional por cada um desempenhar seu papel, seja executando algum passo importante ou apenas por ter sido convencido da sua trágica situação. A solução surge não apenas por conveniências do enredo (que são muitas), mas também de algo que naturalmente foi estabelecido.

Mesmo personagens como Isabella e Irmã Krone, no contexto cruel daquele mundo, buscam a vida com uma figura materna e nutrem laços verdadeiros com as crianças. Por mais que as duas sejam figuras vilanescas durante o anime, é natural que, no momento em que percebem que perderam contra elas, se coloquem em suas posição e desejem do fundo do coração que alcancem o que as duas nunca conseguiram. Talvez a revelação final que Ray é filho de Isabella seja algo desnecessário em evidenciar o óbvio e mostrar a convicção dela ao se colocar no seu papal como Mãe do orfanato, que carrega o peso dos sacrifícios nas suas costas, mas isso surgir no momento em que ela parece recuperar sua humanidade faz o impacto ser maior ainda. A fria e calculista vilã, que se preocupava mais em se vangloriar dos resultados do que de seguir as regras, demonstra todo seu afeto real como mãe e entende o que melhor para elas, antes de finalmente cortar os laços.

A direção do anime fez um bom trabalho em manter o suspense com um clima de tensão constante, sendo bastante ambiciosa em alguns shots e ângulos de câmera para passar a ideia de que os personagens estão sempre sendo vigiados e precisam trabalhar contra o tempo. Algumas escolhas talvez incomodem fãs mais puristas do mangá, que devem se decepcionar pelo fato do anime remover todos os monólogos internos dos personagens, algo que construía melhor mais a ideia de jogos mentais entre o trio protagonista e a Mãe. Ao invés disso, o anime decidiu focar muito mais na forma como os personagens se expressam, sutilmente demonstrando o que está passando pela sua cabeça, e propositalmente mantendo o telespectador no escuro para se manter tenso.

A ideia de manter esse clima funciona bem por boa parte dos episódios, mas não tanto quando existe a noção de que é preciso forçar um gancho no final de cada um. Em alguns casos, é óbvio qual vai ser a ação seguinte, até mesmo por ser uma ferramenta de enredo que, quando usada de forma artificial, estabelece a ideia de que devemos esperar o contrário.

O rumo da série agora é uma incógnita para aqueles que não leem o mangá, mas ainda há muitos mistérios sobre aquele mundo, assim como o rumo da jornada de fuga dos protagonistas, para manter o interesse fora da dinâmica que a série se desenvolveu até agora.

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Mahou Shoujo Tokushusen Asuka

Não era possível acreditar que Asuka pudesse ser um bom anime. O emergente subcategoria de garotas mágicas ‘dark’ nunca realmente entregou um título abrangentemente respeitável desde seu advento com Madoka Magica. Aparentemente não é uma formula fácil de ser aplicada. Asuka não chegou para mudar essa maré, mas possui altos e baixos interessantes o suficiente para discussão.

Asuka começa razoavelmente bem ao representar o estresse pós-traumático de sua protagonista, questionar as consequências sobre deter um grande poder não é algo novo, mas mostrar o rescaldo de sua conjectura não é algo tão recorrente. Asuka entrega genuínos momentos de mel ancólia através da resolução emocional de sua heroína, sua deslocação social e duvida sobre continuar lutando ou não é palpável e fácil de se empatizar. Eventos simples como uma conversa amigável e um convite para o lazer tornam-se inusitadamente significativos e realizadores para o progresso de Asuka em sua nova vida. As interações desse anime não são sagazes ou profundas, mas são legítimas o bastante para construir laços de amizade que servem muito bem tanto a experiência quanto a narrativa.

Apesar de tudo que eu disse acima não ser mentira, pode ser facilmente ofuscado pelo seu péssimo design, é imperdoavelmente genérico e não convincente: adolescentes com corpos desnecessariamente voluptuosos, monstros que parecem ter saído de Five Nights at Freddys, figurino brega e gritantemente óbvios (uma curandeira com roupa de enfermeira? wow…)

O enredo também possui lapsos de consistência. Seu ápice ocorre em sua metade, quando uma colega de escola de Asuka, quem recentemente fez amizade, é sequestrada por uma organização terrorista na tentativa de extorquir seu pai, um membro importante da polícia.

Asuka enfrente seu principal dilema mais uma vez, diferente de um evento posterior aonde conseguiu salvar uma outra colega independentemente, desta vez ela precisa de ajuda. E isto quer dizer se envolver mais com algo que ela inicialmente não gostaria, mas prioridades tomam as rédeas da situação e ela vai ao combate em conjunto as forças especiais anti-magia.

A produção consegue dar tensão necessária para a situação, o combate principal é bem coreografado e ritmado, um nível acima do normal de violência gráfica é estabelecido, uma nova estaca é colocada no enredo (que infelizmente não evolui a trama nos episódios subsequentes). Por mais que os problemas de apresentação sejam gritantes, Asuka conseguiu executar bem seus pontos principais: energéticas batalhas e simpatia quanto ao drama.

Enquanto Asuka manteve certa competência em executar os elementos previamente citados, a história nunca alcança o nível de consequência que este arco oferece. A missão de resgatar sua amiga foi um sucesso, mas a mesma foi severamente torturada (em uma cena genuinamente aflitiva) e com certeza acordará completamente traumatizada. É possível curar tantos os feridos físicos como causar amnésia nela para uma recuperação total, mas isso também apagará as memórias dos recentes momentos que passou junto com Asuka, algo que perturba Asuka em primeira instância, mas a escolha certa é óbvia. Mesmo tendo realizado a missão com sucesso, Asuka sente que perdeu muito mais do que ganhou, mas também entende que este é o destino daqueles que lutam pelos outros, firmando assim sua nova determinação.

Após esse respeitável arco, Asuka não alcançou mais ápices. A história continuou na mesma instância, porém sem nenhum outro grande clímax e com os mesmos problemas nunca sendo amenizados, sendo seguro dizer que são elementos intrínsecos da obra que dificilmente serão superados; uma pena, pois não é uma história de se jogar fora, por mais que se apresente desse jeito.

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