REVIEW IN A BOX – MAQUIA: WHEN THE PROMISED FLOWER BLOOMS

REVIEW IN A BOX – MAQUIA: WHEN THE PROMISED FLOWER BLOOMS

Sayonara no Asa ni Yakusoku no Hana wo Kazarou

(Texto sem spoilers, mas recomendado a quem assistiu a obra)

Maquia é um filme lindo, e se tratando de seu imaginário audiovisual e sua mensagem principal, é uma obra excelente. A marca registrada da P.A. Works em produzir cenários deslumbrantes chega ao seu ápice aqui, sendo justo até mesmo compara-lo com o extraordinário Violet Evergarden nesse quesito. Mesmo não contendo a mesma individualidade em design de personagem e iluminação notórios da KyoAni, a diversidade cênica de Maquia é igualmente impressionante: sociedades pristinas pintadas do mais puro branco, arcadismo campestre, capitais medievais com castelos lendários e imponentes; detalhes lindíssimos como o reflexo da paisagem na superfície da água e o cuidado no sombreamento são retoques sutis que elevam o nível técnico do filme, que não fica só por conta do visual.

A trilha sonora ficou a cargo de Kenji Kawai (Ghost in the Shell, Mob Psycho 100), cuja presença em um projeto da P.A. — famosa por sua filosofia em cultivar novos talentos — ser uma agridoce surpresa, pois adquirir um tiro certo para a produção é definitivamente reconfortante. Como esperado, o lendário compositor não decepcionou, a música é parte essencial da imersão e da caracterização da história. O tema principal (e suas várias versões) é um gentil, porém melancólico, arranjo de harpas e coros etéreos, imbuídos em um tocante sentimento de lamentação nostálgica — uma memorável melodia que sintetiza com precisão o pungente tom da narrativa. Maquia é bastante dependente de sua trilha sonora para evocar suas melhores intenções e momentos. Posso estar sendo sorrateiro nessa afirmação, mas já afirmo que o roteiro não é de todo ruim.


Iorph, o clã dos apartados

Maquia é um história sobre maternidade. Mais especificamente, maternidade precoce. Um tema que pode ser bastante problemático em uma abordagem mais realista, e é justamente nisso que o filme demonstra seu maior feito de engenhosidade: apresentar esse tema com uma sutileza surpreendentemente orgânica. O conceito responsável por isso, a raça de imortais e eternamente jovens Iorph, parece existir exclusivamente em prol disso. As dificuldades e o preconceitos que Maquia sofre são representações legitimas desse sensível tópico, e mais que isso, o filme utiliza de sua própria natureza fantástica para expandir esse conflito em seu segundo ato. O modo como Ariel se sente estranho e desconexo em relação a sua própria mãe é o segmento mais natural e organicamente estruturado de todo o roteiro, mesmo que seu desenrolar não consiga dar progresso ao razoável nível estabelecido.

Maquia peca muito quanto a sua apresentação textual de seu mundo. Muitas das afirmações daquele universo soam pedantes e auto-indulgentes, que não conversam com a presentação predominantemente casual e sincera dos diálogos; pior que isso, é como se nenhuma das implicações da criação de mundo sejam relevantes por si, existindo apenas a serviço das engrenagens da narrativa. Iorph, Hiliol, Mezarte, Renato (rofl), redenção através do amor, tentativa de criar uma linhagem eterna, uma mãe que nunca viu a própria filha, nada disso importa. Tantas linhas do enredo não se justificarem por falta de uma maior coalizão entre esses elementos, construídos e terminados por frases de efeitos que não causam efeito. Personagens secundários como Leila, Krim e Izol são inconclusos e pouco significativos, um descaso considerando o notável tempo concedido para suas respectivas dramatizações.

O arco dessa personagem foi incompreensível, e sinto que tentar entendê-lo não vai contribuir para apreciação do filme

Em primeira instância o filme parece competente em sua cinematografia, os planos são bonitos, bem animados, com montagem e edição aparentemente operante. Aparentava, pois o inicio do terceiro ato e seus segmentos seguintes são nocivamente dessensibilizadores. Os personagens até então caracterizado como kindred spirits são completamente dissociados, sem nunca terem se resolvido emocionalmente. A falta de contextualização dos personagens principais após o último time-skip é extremamente desconcertante. Estávamos acompanhando aqueles personagens em detalhes durante anos de suas vidas, e perder o contexto significa o mesmo que deixar de entender seus estados de espíritos. A trama ainda contribui para essa confusão nos jogando a cenas que não fazem sentido nenhum e nos fazem questionar: “como diabos ela chegou ali?” e “ela está gravida???”. Cenários e informações tão deslocadas que faz parecer que algumas partes foram simplesmente puladas.

A narrativa a partir daí opta por um caminho recursivo no tema de parentalidade, justaposicionando a guerra e as motivações paradoxais de Ariel em proteger o país responsável por grande parte de sua miséria, um subtexto interessante que acaba sendo ofuscado pelas inúmeras conclusões (ou ausência delas) insatisfatórias e amargamente convenientes. Superando isso, o filme entrega boas cenas emocionantes que resolvem melhor seus personagens e um final que, mesmo manipulativo, faz seu papel em taxar o máximo de emoção possível que o espectador permitir.

Um ponto importantíssimo que neglicenciei até o momento é o fato de Maquia ser o primeiro trabalho diretorial da escritora Mari Okada, e o motivo por qual o fiz é: até hoje, eu nunca consegui sequer completar um anime original canetado pela mesma. AnoHana, Fractale, Hanasaku Iroha, Hisone to Masotan. Todos esses deixaram um gosto estranho na minha boca, suas fundações dramáticas sempre me pareceram surreais, completamente desprovidas de senso lógico que alcançasse minha empatia. Ainda pior, a ilogicidade dessas obras muita vezes resultava em cenários extremamente irresponsáveis tanto emocionalmente quanto socialmente falando — tal como a banalização da maternidade em Iroha e a complacência com o machismo em HisoMaso. Por essas e outras, Mari Okada não é muito bem vista pelo nosso nicho de supostos entendidos do assunto. Dito tudo isso, o que finalmente tenho a dizer é que seu estilo consegue encaixar até que bem em Maquia. A maioria dos animes citados anteriormente possuem ambientações — tanto em cenário quanto em ethos — bastante verosimilhantes, o que causava na minha experiência uma discrepância em relação as suas presentação absurdas da realidade. Já neste filme, esse intenso fervor da escritora em criar dramas pomposos e mirabolantes é melhor justificada pelo seu teor fantasioso. Maquia pra mim sai com um saldo quase positivo, por ser um filme que surpreende em sua abordagem e beleza cristalina, mas que infelizmente não é surpreendente em seus furos e amadorismos.

Amante das tragédias mais auto-críticas e dos slice-of-lifes mais serenos, eternamente em busca de encontrar o equilíbrio entre ser um otaku malcheiroso e um connoisseur.

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