Hitoribocchi no ○○ Seikatsu

Hitoribocchi no ○○ Seikatsu

Estúdio: C2C
Direção: Anzai Takefumi
Roteiro: Hanada Jukki
Baseado em um mangá por Katsuwo
Número de episódios: 12
Hitori Bocchi é uma garota que sofre de extrema ansiedade social e não é boa em falar com outras pessoas, o que a leva a ter reações bem extremas no seu corpo como câimbras e ânsia de vômito. Agora que está para cursar o ensino fundamental, sua única amiga, Yawara Kai, que está em uma escola diferente, diz que não vai mais falar com ela até que faça amizade com todos na sua nova sala. Isso deixa Bocchi totalmente isolada, cercada por novos colegas com os quais ela tentará fazer amizade.

Do mesmo autor de Mitsuboshi Colors, Hitoribocchi segue o dia a dia de uma garota com um nome nada sutil sobre sua condição. Hitori Bocchi (literalmente “solitária”) nunca conseguiu fazer nenhum outro amigo além de Kai, sua amiga de infância. Com receio do seu futuro agora que estarão em escolas diferentes, Kai decide cortar laços com Bocchi, com a promessa de que só voltará a falar com ela caso consiga fazer amizade com todos da sua sala.

Boa parte do humor do anime vem do fato de Bocchi ser inepta socialmente e extremamente tímida, o que talvez seja um pouco de mau gosto em algumas situações, tal como a cena em que ela se sente tão ansiosa ao se apresentar em sala que acaba vomitando. Mas a maioria das situações cômicas não são tão extremas, e focam mais no fato dela não entender exatamente que tipo de interação deve ter para fazer amigos e suas tentativas atrapalhadas em falar com Sunao, a menina que senta na sua frente.

Como também é comum em adaptações de mangá 4-koma, o anime adiciona muitas cenas extras e cria um fluxo mais interessante. Há mais liberdade para trabalhar as personagens sem ter que se preocupar em montar cenas apenas para ter um punchline no final. Com um diretor que trabalhou em Mob e Glasslip, eu não sei bem o que tirar do seu estilo por hora, mas há um certo charme na produção. E certamente é promissor que o roteiro seja de Jukki Hanada, agora renomado por Yorimoi.

Por mais que o foco seja a forma atrapalhada como Bocchi tenta dar seu melhor para conseguir amigos, ainda tem algo aquecedor na forma como vai ela obtendo sucesso. O entrosamento entre ela e Sunao renderam momentos divertidos, mas também são demonstrações que Bocchi está tentando superar sua ansiedade em falar com pessoas, e que talvez seus sentimentos consigam alcançar a pessoa com quem ela quer se tornar amiga.

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Hitoribocchi no Marumaru Seikatsu é a primeira estreia da temporada de animes da primavera que vi dentre aqueles que pretendo e acho que não havia escolha mais adequada para iniciar ela. Afinal, é sempre bom começar com um gostinho familiar, não é?

Digo, Bocchi tentando iniciar seu ano letivo com a grande missão de fazer amigos apesar de todos os seus problemas com ansiedade social é algo com o qual consigo me relacionar de diversas maneiras diferentes e não acho que seja tão diferente pra muita gente fã de anime por aí.

Aliás, o início brusco do episódio já casa perfeitamente com o estado de espírito dela e o caos emocional gerado por um dia tão especial quanto o primeiro dia numa nova escola. Aposto que todo mundo deve ter passado por isso e tem lembranças memoráveis desse dia pra contar.

Claro que o principal objetivo da obra é elevar situações cômicas a níveis absurdos, este é o tipo de linguagem mais comum de mangás 4-koma, afinal, e em animes de comédia como esse. Realismo é um aspecto completamente dispensável, mas isso não me impediu de parar e lembrar de momentos pelos quais passei ou comportamentos que tinha que hoje posso ver como engraçados — como por exemplo, se desviar do seu caminho e fazer atividades estranhas só pra evitar ter contato com as outras pessoas ou “se transformar” em uma nova pessoa em uma conversa online, pois é extremamente mais fácil de se comunicar quando não há contato humano próximo — e, ao menos na minha experiência, isso acaba por ser um adicional bastante divertido.

Bom, as lembranças (meio patéticas, confesso) não são a única coisa que o anime tem a oferecer obviamente. Fãs de CGDCT em geral devem se agradar muito com Hitoribocchi, que promete vários momentos hilários, com o charme desajeitado irresistível de Bocchi, que faz com que seja impossível não se deixar conquistar já no primeiro episódio (nem a Nako, toda cool, conseguiu, como é que eu iria?) e todas as novas amigas que deve fazer durante os próximos episódios.

Se você gostou de Comic Girls, lá da temporada de primavera de 2018, recomendo não perder este de vista.

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É sempre difícil dar opinião de um anime que é adaptação de um mangá que li, já  que é complicado analisar o episódio por si só (sinto que já comentei isso demais). Hitoribocchi trata de uma menina que sofre com fobia social e transforma sua história em uma comédia fofa. Então, é, talvez isso seja um problema para algumas pessoas, por isso é bom deixar claro. É parecido com o que WataMote faz, mas, ao invés de focar na personagem sendo miserável, tem uma proposta um tanto mais otimista (apesar que WataMote hoje também já caminhou para esse lado, mas isso é outra história). Mas mais otimista não quer dizer mais correta. A cena em que a melhor amiga de Bocchi simplesmente corta relações com ela para que ela possa fazer amigos parece desnecessariamente cruel, o que mostra que a única intenção do autor é fazer uma comédia ignorando os problema que essa condição causa. Inclusive, essa cena no mangá aparece bem depois, o que muda bastante o tom desse começo no anime.

A comédia de Bocchi funciona às vezes, mas acredito que o timing de algumas piadas se perdeu no anime por conta dessa mistura de cenas que no mangá são flashbacks. Porém, lá pela metade o ritmo melhora e passa a seguir melhor o original. Mas o foco sempre foi na luta de Bocchi para fazer amigos, então é esperado ter mais momentos “fofo” que engraçados. Além disso, fãs do mangá vão notar que não houve uma tentativa de replicar a arte original, dando um traço mais “maduro” ao design do anime, o que provavelmente vai dividir opiniões.

No geral, o anime é competente. Se vai funcionar daqui em diante ou cair a qualidade, depende da competência na adaptação, visto que o original tem personagens bem interessantes e divertidas. Mas novamente, alguns podem achar que o anime está fazendo piada ou tornando fofo um problema real, o que acho um argumento válido.