Vento Aureo é a pior ou está entre as melhores partes de Jojo?

Vento Aureo é a pior ou está entre as melhores partes de Jojo?

A parte 5 de Jojo sempre teve uma recepção peculiar. Aclamada no Japão, os fãs ocidentais nunca foram tão receptivos, com o consenso entre o fandom sendo que ela era uma das piores. No meio da febre que está sendo Jojo nos últimos anos, as adaptações em anime, com seu charme e estilo, dificilmente falham em entregar um produto que agrade um público mais abrangente, fazendo alguns repensarem a relação com a obra original e às vezes mudando de opinião. E para aqueles que só acompanham no seu formato anime, a parte 5 entrou para o hall das partes favoritas. Por outro lado, assim como parece ter conquistado mais fãs ainda para a franquia, também conseguiu carregar o desgosto dos fãs mais antigos nesse novo público. Dá para argumentar que essa talvez seja a relação que muitos têm com a franquia desde a parte 3, mas isso parece ser especialmente forte na parte 5. Então, com a opinião de alguém que acha a parte 5 uma das melhores e de alguém que considera a parte 5 a pior, decidimos discutir e entender o que faz a parte 5 ser tão controversa e divisora.

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Vento Aureo sempre teve um charme particular que me atraía mesmo antes de chegar nela quando acompanhava o mangá. Em retrospecto, não tenho bem certeza do porquê, mas talvez fosse o design dos personagens ou a ideia do protagonista ser o filho do maior antagonista da série (algo que não tem quase peso nenhum narrativamente, mas ainda é interessante conceitualmente). Provavelmente já conhecia também a reputação de ser idolatrada no Japão antes de ler, então isso reforçou mais ainda a ideia de ser uma parte especial.
Acredito que o grande aspecto que define e carrega a franquia JoJo é o carisma: a incrível capacidade da obra em conquistar o espectador com suas fanfarronice, tornando o que racionalmente poderia ser incrédulo em espetáculo. Cada parte dispõe de essenciais diferentes em como alcança tal façanha, inclusive Vento Aureo. Porém, eu falho em reconhece-las como eficazes. Começando com o protagonista: Giorno Giovanna. Por mais que sua motivação seja nobre, considero a mais longínqua de se simpatizar. Um grande motivo para isso é a inocupação da obra em relação ao tema de mafia, mas longe de mim exigir substância temática em JoJo.
O que torna o Giorno tão não-carismático é sua virtual invulnerabilidade, não só como um lutador, mas também emocional. Ele praticamente nunca é mostrado em uma situação de crise/dilema. Ele sempre encontra a resposta cirurgicamente precisa para resolver situações absurdamente convolutas. Talvez a maioria das pessoas veem esse apelo positivamente, mas particularmente eu acho enfadonho.
O Araki costuma definir que seus protagonistas são como heróis gregos, não só pela forma escultural de seus corpos, mas por toda a ideia deles terem um grande destino para confrontarem e na idealização da sua coragem e sagacidade, com o Josuke sendo o ponto fora da curva até então. Mas talvez por puxar demais desse tipo de inspiração, seus protagonistas acabem sofrendo com um arquétipo muito limitado – além de um protagonismo exacerbado. O Jotaro era um protagonista que sofria muito nesse sentido, tanto por ser estoico e por boa parte das batalhas serem resolvidos com seu Stand superpoderoso.
Da mesma forma, Giorno sofre por ser um personagem que está muito limitado a sua ambição e que, dentro da fórmula extremamente linear de Jojo, nunca será questionado sobre ela. Ele é definido por aquilo e não acontecerá nada drástico para desenvolvê-lo melhor. Jojo é uma obra bem conceitual, afinal. Tudo funciona de forma simples, com a narrativa tomando um rumo que é mais interessante para o Araki conseguir focar em criar tabuleiros de batalhas complexos. No caso da parte 5, embora, acho que isso funciona melhor, pois lida com essa ideia tematicamente. E isso entra num ponto que me fez gostar de Vento Aureo em particular: o grupo de protagonistas são arquétipos heroicos dentro de um contexto que os torna não tão heroicos, sendo capazes de crueldades para alcançar seus fins.
A minha relação com o elenco só pode ser descrita como apática. Diferente das outras partes, no qual o grupo principal vai progressivamente sendo montado e os personagens são apresentados em tempo real, Vento Aureo começa com uma trupe principal formada, utilizando-se de flashbacks para maior aprofundamento de seus passados. Enquanto em One Piece — obra que coincidentemente possui essa mesma subversão de personagens heroicos mas não tanto — esse recurso potencializava o pesar da situação presente com maiores complexidades. Os de JoJo Pt.5, em comparação, afiguram-se inócuos, pois não imbui nenhuma nuância na atual conjecturas desse personagens, apenas justificando algumas de suas peculiares, pois a instância deles permanece sempre a mesma: lealdade ao Bucciarati. Eles podem ser estilosos, mas possuem um modus operandi mecânico em suas atuações, interações e ambições.

É bem questionável a forma como os flashbacks são inseridos na narrativa no anime. Enquanto no mangá eles acontecem de forma mais natural e em parte mais estratégicas, a decisão da direção do anime de coloca-los após a transição do meio do episódio sempre me gerou um incomodo na forma como pareciam surgir sem justificativa narrativa. De qualquer forma, eu concordo que eles sejam um tanto artificias, quase como se fossem fichas funcionais para personagens de um RPG de mesa. Mas, novamente, eles conversam bem tematicamente. Sim, a função deles é estabelecer a lealdade de cada um deles pelo Bucciarati, mas também definem traços de personalidade que são incorporados nas ações que tomam durante toda a jornada.

Abbaccio era um policial corrupto que suas escolhas erradas levaram a morte de um parceiro, então ele precisa de alguém lhe dando ordens para fugir de sua culpa, bem como busca algum tipo de redenção; Mista é o pistoleiro imprudente que nunca hesita porque ele sabe que é um dos protagonistas e não vai morrer porque deixa sua vida ser guiada pelo acaso e não se importa se suas escolhas levarão ao seu fim ou não, o que o torna quase invencível; Narancia foi abandonado por seus amigos e familiares, então ele, mais que todos ali, quer manter o grupo unido como uma família, o que também justifica sua relação com a Trish posteriormente.

Como disse antes, Jojo não se preocupa em elaborar muitos de seus personagens e suas ambições, porque tudo ali funciona conceitualmente. Isso realmente pode levar a ter uma relação de desprezo ou apatia pelos personagens, que podem passar a ser encarados como meras ferramentas para o enredo e batalhas com gimmicks legais, mas ainda há um certo carisma na personalidade de cada um e em suas interações que carregam os personagens para além disso na minha opinião – sendo responsáveis por grandes pérolas de toda a franquia.

No quesito ação, vejo esta parte como a mais esquecível. O que normalmente expressaria que acho-a branda ou sem graça, porém é justamente o contrário. Ela sofre de uma estilização exagerada e obtusa que não me permite enxergar as estacas de perigo e os mérito de suas reviravoltas. Assim como não vejo carisma nas peculiaridades do elenco principal, isso é ainda mais agravante nos vilões; eu desprezo praticamente todos. Exceto Prosciutto e o Risotto, justamente por não serem bolas de carne com graves problemas psiquiátricos. Em compartida, devo elogiar a performance vocal do Ghiaccio, tornou a psicose do personagem bastante convincente e ameaçadora. Também devo dizer que acho seu arco bastante excitante, assim como a luta entre Risotto e Doppio.

Porém, ambas são arruinadas pela falta de consequências permanentes. O personagem que precisa vencer sai vitorioso e virtualmente ileso, não importa quão severa a situação apresentada tenha sido. Isso se repete muitas vezes; eu não considero mais que uma piada o fato do Bucciarati ficar vivo durante tanto tempo naquela condição. Para piorar a situação, mortes de personagens relevantes são reduzidas a One Hit Kills, o que faz sentido, mas definitivamente não conversa com a essência da franquia ou oferece um twist proveitoso.

Acho a ação da parte 5 particularmente bem empolgante, especialmente no começo. É sempre interessante ter o primeiro contato com as habilidades dos personagens e a forma como pensam estrategicamente. Boa parte das batalhas inicias de cada personagem são apresentadas de forma épica e como se realmente fosse o momento de ouro deles. Narancia contra Formaggio, por exemplo, mesmo não sendo a mais complexa em termos de estratégia, tem uma tensão que vai escalando cada vez que um dos personagens se vê encurralado e no momento que viram a mesa contra o seu adversário, até culminar num stand off à la western, que geralmente se vê presente na série no seu clímax – e muito mérito da direção do anime por ter construído tão bem isso. O que me faz pensar se isso é o que gera o problema do Araki ter que inventar novas habilidades ou simplesmente negligenciar os personagens, já que algumas dela funcionam em poucos contextos isolados e lutar em equipes, embora mais presente aqui, não é algo tão decorrente durante toda a franquia.

Muita gente parece ter comprado a desculpa do Araki de que o Fugo se despediu do cast porque era isso ou ele ser um espião, mas estou mais propenso a acreditar que ele simplesmente não conseguiu pensar em mais batalhas para encaixá-lo ou que a presença dele já desbalancearia batalhas seguintes. Enquanto a habilidade do Gold Experience, por exemplo, é interessante no começo (até por ser mais simples), as batalhas seguintes são bem convenientes para que ele possa usar de uma forma totalmente nova e arbitrária, que faz você coçar a cabeça se aquilo é justo ou não. Como comparação, o Stand de Josuke, Crazy Diamond, tem uma habilidade relativamente simples, mas é usado em vários contextos criativos. GE apenas surge com soluções que parecem algum tipo de cheat. Por outro lado, Jojo é algo que se importa muito mais com a apresentação do que na lógica por trás, então ainda consigo me abstrair e aceitar qualquer possibilidade absurda que o Giorno ofereça. Embora clonar a tartaruga e seu Stand pareça abrir um caminho de possibilidades assustadoras que não sei se vale a pena ter ido.

É impossível negar a radiância de Vento Aureo, desde dos designs ultra extravagantes às jubilosas personalidade, o ritmo incessante da narrativa e o rico imaginário do seu sistema de poder. Apresentei minhas instâncias do porquê desgosto de alguns elementos dessas características, mas como foi referido diversas vezes é um problema meu com a essência da obra e não necessariamente um problema dela com ela mesma. São estéticas e dinâmicas que não funcionaram comigo, assim como o cavalheirismo e a bravata de Phantom Blood são facilmente menosprezados por alguns, enquanto eu as aprecio profundamente.

A magia de Jojo está não são só no conceito de cada parte ser distinto em questão de personagens, narrativa e ambientação, mas bem como na sua estética e temática. Nesse ponto, talvez Vento Aureo seja minha parte favorita. A ideia de destino, de uma força que dita suas vidas sem que possam fazer nada — como eles são chamados no fim da série, “escravos adormecidos” — é algo que acho fascinante como conversa com a narrativa e os personagens. No contexto de gangues, cada um deles foi vítima de algo que os levou a tomar escolhas ruins que trouxeram à ruína de suas vidas. Ainda sim, eles buscavam redenção ao entrar no grupo do Bucciarati, e depois na jornada para salvar Trish de Diavolo – que não tem um nome muito sutil. Com a habilidade de “skippar” o tempo e sua visão de um futuro imutável, Diavolo é uma clara representação de destino e da força superior que o opera. Sua caracterização como alguém que não é só arrogante, mas acredita que é inevitável que ele esteja no topo, ou até mesmo pelo fato de que ele representado mais pelo seu Stand durante a série para estabelecer essa ideia que sua habilidade é o que o define, é algo que torna ele um vilão especial da série para mim.

No caso do Giorno, por mais que a ideia dele ser filho do Dio não levante nenhum ponto durante a narrativa, como disse, funciona conceitualmente. Dio era caracterizado como um vilão cruel por sua ganância e sua falta de pudor para alcançar seus objetivos, com a convivência com um pai violento sendo um dos fatores que o tornaram assim. Giorno também sofreu da mesma forma. Mas a prova de que ele é diferente de pai é que ele optou por salvar alguém por sua própria vontade – diferente até mesmo do pai de Dio, ao supostamente salvar o pai de Jonathan. De certa forma, ele desafiou seu destino (e o nome do seu pai aqui também deixa um pouco óbvio demais) e se tornou alguém que voltou suas ambições para fazer o bem.

Ao mesmo tempo que admiro a grandiosidade temática dessa interpretação, também sou totalmente incrédulo o quão efetivamente ela é tecida pela narrativa. É sempre mais convincente mostrar do que falar. Exceto em “Sleeping Slaves”, quando a questão do destino é reiterada? Na maioria do tempo, nossos gangsters favoritos prosseguem suas vidas tranquilamente, mesmo em meio ao objetivo absurdamente difícil que traçaram. A dificuldade imposta após entenderem a magnitude do poder do Diavolo pode muito bem encaixar conceitualmente, mas não deixa ser trope-y as it gets (vilão formidável que descomunalmente aparenta ser imbatível). Assim como a imediata aceitação de todos quanto ao gigantesco fardo de lutar contra ele (ou isso), exceto o Fugo, mas essa é uma incredulidade tão grande que prefiro nem comentar sobre.

A obra não faz um mínimo de esforço pra enfatizar o fato deles serem criminosos, e por isso não vejo o mérito justaposicional de suas ações. O grande embate moral de Giorno em relação as práticas maliciosas e opressoras da Mafia dificilmente são entrelaçadas ao enredo. Pontos essenciais da história possuírem mínima substância só me levam a pensar como a ambientação de Vento Aureo é vápida e não incrementa no valor temático e diegético da obra. Por essas e outras queixas, considero essa a pior parte de JoJo.

Talvez ser um Gangstar seja bem diferente do que imaginamos e eles só queriam achar pretextos para posarem falando frases de efeito, com a deixa da mudança da paleta de cores e a música tema tocando ao fundo.

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