A fórmula revival

A fórmula revival

Rápido, animes estão morrendo! Voltem com franquias amadas que consigam apelar para um público carente de personagens e histórias familiares!

Como um sinal apocalíptico de que a indústria de animes está morrendo criativamente,  temos cada vez  mais tentativas de retorno de franquias amadas no passado, geralmente sobre o pretexto de comemoração de x anos desde seu lançamento ou de aniversário do seu criador. Ironias à parte, o conceito de um revival pode se algo bem desafiador, dependendo da pretensão que há por trás da produção. Com tantos títulos do tipo surgindo, alguns tendo sucesso enquanto outros caem facilmente no esquecimento, será que dá pra dizer que existe uma fórmula de como apresentar (e reapresentar) uma franquia? E qual o valor em recontar histórias antigas?

Primeiramente, o que faz um revival ser interessante? O fato de conseguir, literalmente, reviver o apelo que a franquia tinha originalmente, tal como em Clear-Card ou Digimon Tri? Ou na forma como conseguir reinventar o conceito para os tempos atuais, visto em Gatchaman Crowds e Megalo Box?

Sendo completamente honesto, o primeiro exemplo é algo que me incomoda pela redundância, repetindo exatamente a fórmula que deu fama à obra. Os tempos são outros. O público também é outro. Mas isso não importa, porque não é assim que o público se enxerga. Ele quer apenas mais do que ele reconhece como bom, algo que não oferece obstáculos e que vai agradar incondicionalmente. Talvez não seja justo argumentar isso num viés comercial, visto o sucesso que ainda fazem, mas, de um ponto de vista mais crítico, é algo que se torna banal. O público não está sendo desafiado a gostar de algo novo, ou até de entender que seu gosto tenha mudado, e se vê cego pelo apelo afetivo que aquilo o traz. Mas, novamente, é um mercado sendo suprido, então talvez não me caiba questionar isso.

Casos como os já citados Cardcaptor Sakura Clear-Card e Digimon Tri, sequências dos animes originais, conseguiram sucesso preservando (e reforçando) muito do que era presente no original. Os personagens e as situações tentam sempre emular o que era marcante antes, apelando para o familiar e o que, em tese, fez o público gostar tanto para começar. O senso nostálgico que a obra passa é o que faz essas novas versões conseguirem sucesso, então provavelmente não há a intenção de conquistar um novo público.

Por outro lado, Gatchaman Crowds talvez seja um ótimo exemplo de como desafiar o conceito da série original e criar algo mais interessante para um público atual. O original, uma produção clássica do estúdio Tatsunoko, tratava-se de um grupo de heróis à la super sentai, em que a pretensão era apenas mostrar a personificação do altruísmo lutando contra vilões e suas motivações não muito socioambientais de desgastar os recursos naturais. O que não é um problema considerando a época e o seu público-alvo.

Mas se as coisas não fossem tão simples assim? E se a entidade alienígena que concedeu poderes especiais a um grupo de adolescentes e adultos para lutarem contra um suposto mal seja alguém questionável? Por quê apenas as ações do Gatchaman são vistas como heroicas quando qualquer um pode fazer uma boa ação? É isso que Gatchaman Crowds tenta subverter, numa trama em que as pessoas são estimuladas a fazerem boas ações e ganharem pontos num aplicativo. Numa sociedade em que todos estão conectados digitalmente, em que todos buscam protagonismo, a ideia de que o heroísmo é mais uma ação compartilhada e em conjunto é muito mais interessante do que algo idealizado em um grupo especial.

Devilman Crybaby também alcançou seu sucesso com uma audiência moderna ao ter uma adaptação nas mãos do renomado diretor Masaaki Yuasa e seu estilo característico. Yuasa tentou trazer temas muito mais em debatidos atualmente para relacionar com a obra, tais como os anseios de não pertencer a um grupo e o sufocamento de viver numa sociedade alienadora, como pano de fundo para a saga épica de Go Nagai; ao mesmo tempo em que preservou muito do estilo campy do mangá original. O resultado talvez não tenha sido tão satisfatório em criar uma obra tematicamente consistente, mas com certeza comunicou muito melhor a ideia de deslocamento e paranoia social do original – um pouco mais desafiador do que sua primeira adaptação pela Toei nos anos 70, que só pretendia vender brinquedo.

O fato dos direitos de streaming pertencerem à Netflix realmente foi um grande incentivo para a o anime ter alcançado um grande público, mas também é fácil entender como ele conseguiu se relacionar com um público atual, que busca obras que reflitam um caráter crítico sobre questões sociais.

Ainda em um ano de muitas comemorações ao Go Nagai, tivemos outra adaptação de outro mangá clássico seu: Cutie Honey Universe, que, tirando algumas poucas liberdades, foi bem fiel ao original. E isso parece não ter sido muito benéfico para a obra, que continha muitas piadas sexuais que não dataram bem. Mesmo com o sucesso de Devilman Crybaby na época, que muitos argumentaram que serviria como holofote para atrair uma nova geração aos clássicos, essa nova versão de Cutie Honey foi menosprezada pelo grande público e alvo de muitas críticas. Por outro lado, a série de OVAs Re: Cutey Honey de 2004, dirigida por ninguém menos que Hideaki Anno, diretor de Evangelion, tomou bastante liberdade na produção e foi aclamada como uma das melhores adaptações da clássica heroína.

Uma das obras mais influentes de todos os tempos também teve seu retorno aos tempos atuais. Megalo Box carregou o peso do legado de Ashita no Joe, clássico mangá que cativou todo o Japão na época, ao ponto de ser referência a movimentos sociais. Numa releitura em que o boxe agora é disputado com equipamentos mecânicos chamados de gear que auxiliam os lutadores, acompanhamos a clássica história do underdog que ascende ao topo.

Embora Ashita no Joe tenha um legado cultural muito forte, não seria justo tentar equiparar as duas obras. Criada durante um período pós-guerra, o mangá representa através do seu protagonista, Joe, a situação econômica do país e a situação de pobreza que o Japão enfrentava na época. É um personagem que, assim como o Japão, vai se transformando na medida que supera adversidades.

O Joe que vemos em Megalo Box também é um símbolo, mas seu personagem é muito mais estoico. Não sabemos nada do passado do personagem e apenas acompanhamos sua ascensão como um símbolo de esperança numa sociedade com classes sociais extremas. A pobreza é caracterizada de uma forma muito mais estrutural, com a ideia de Joe lutar sem o gear representando seu confronto contra o corporativismo.

Megalo Box conseguiu se consolidar talvez não como um clássico tão impactante quanto Ashita no Joe para uma nova geração, mas como algo que se ergueu por contra própria.

O caso mais recente é o de Dororo, anime produzido pelo estúdio MAPPA, baseado no renomado mangá do “deus do mangá”, Osamu Tesuka. Tendo agora uma estética mais realista e sombria, Dororo lida com temas pertinentes da época feudal japonesa, como a crueldade dos lordes feudais e a pobreza que assolava a população. Com a premissa de um lorde que vendeu seu filho em troca de fartura em suas terras, a criança acabou tendo seus órgãos roubados por um grupo de 48 demônios. Após ser salvo por um médico, que também era um especialista em próteses, o garoto sobreviveu e se tornou uma arma de guerra contra os mesmos demônios – partindo em uma jornada para recuperar suas partes roubadas.

O mais interessante desta nova versão é a forma como ela lida tematicamente com as partes recuperadas de Hyakkimaru, o protagonista, em cada episódio, bem como com seu desenvolvimento individual. No mangá, embora a premissa seja mesma, Tezuka arranjou formas de remediar suas deficiências, tal como o fato de que ele consegue falar através de uma técnica de ventriloquismo (seja lá como isso funcione) e sua visão extrassensorial que parece funcionar como uma visão normal. A sua construção no anime é de alguém estoico, que não consegue falar e sequer tentar interagir com outras pessoas, quase como de fato um boneco, que aos poucos vai recuperando a sua humanidade usurpada.

Ainda é possível citar casos como o de Osomatsu-san, que transformou um simples mangá gag da era Showa em um fenômeno de estrondoso sucesso. Pegando emprestado do humor escrachado dos animes de comédia atual, tais como Gintama, essa nova versão conquistou uma enorme fanbase, que provavelmente nunca se interessou pelas outras adaptações, considerando que apenas os personagens foram preservados – e mesmo eles sofreram mudanças drásticas de personalidade. A mesma fórmula foi utilizada em outro revival do mesmo autor, Bakabon, mas pelo visto o raio não cai duas vezes.

Seja um revival velado como sequência ou uma completa releitura do original, a tentativa de retorno de uma obra ou franquia antiga parece funcionar bem quando há mudanças, por mais que sigam o molde do original. Existe mercado para quem busca o novo que inova, mas também para quem se estagna e busca o velho que se vende como novo. Tentar não se comunicar com essas duas audiências talvez seja o maior erro que cometam.

De qualquer forma, o fato de que o passado toma cada vez mais o presente não significa que o espaço para inovação esteja morrendo. Há formas e formas de contar uma história, moldadas pela direção, roteiro, animadores e até o contexto social em que são produzidas. Estamos sempre avançando, mudando comportamentos e estabelecendo novas normas sociais. Cada época estabelece seu Zeitgeist e logo nos vemos sendo pessoas diferentes do que éramos alguns anos atrás, então é natural que velhas histórias também acompanhem esse processo e sigam sendo recontadas.

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