REVIEW IN A BOX #03: HAPPY SUGAR LIFE 1-5

REVIEW IN A BOX #03: HAPPY SUGAR LIFE 1-5

Durante o preview, escrevi que Happy Sugar Life não era história sobre uma yandere. Pensando bem, isso não é completamente correto. Histórias assim tendem a focar no lado violento e é fácil tentar desconsiderar quando uma história tenta colocar um drama mais psicológico. Além disso, histórias com uma yandere geralmente focam em um personagem que está sendo perseguido ou perseguida, e não na pessoa com problemas mentais. Happy Sugar Life tenta entrar dentro da mente de sua protagonista e explicar as razões de sua protagonista. Podemos dizer que a história tem o ponto de vista do monstro e não de suas vítimas, sendo isso que dá à narrativa uma atmosfera diferente.

E no fim, sobre o que histórias de yandere tratam? Amor. Esse é também o tema principal aqui, por mais que possa não ser visível à primeira vista. Quando os episódios vão passando, isso se torna óbvio. Pelo menos pela insistência da protagonista Satou de nos lembrar a todo momento. Happy Sugar Life inteiro é sobre Satou protegendo sua própria definição de amor contra a dos outros.

A sexualidade da protagonista é algo complicado de definir no momento. Seus sentimentos por Shio parecem ser completamente platônicos. Visto que ela procurou por amor em relacionamentos supérfluos com diversos homens e que nunca sentiu nada por eles, Satou parece desacreditar na ligação entre amor e sexo – o que fica evidente quando confronta sua chefe. A forma com que desdenha a luxúria dessa quando abusando de empregados dá a entender que Satou vê sexo como uma coisa suja e sem valor. É óbvio nesse momento que Satou não a está julgando porque ela cometeu um crime, mas porque se deixou levar pelos desejos, construindo uma relação que vai lhe trazer nada fora prazer. Para Satou esse é o maior pecado e o motivo pelo qual ela considera sua chefe uma pessoa sem valor, independente se sua relação com Mitsuboshi, seu empregado, fosse consensual ou não.

Isso levanta a questão de se Satou vê sexo como algo sujo ou a busca de prazer superficial como algo sujo. Seria interessante ver como sua relação com Shio seria afetada por isso. Shio é quem demonstra maior interesse físico por Satou. Sim, ela é uma criança, mas preferência sexual não é algo que acontece somente após a puberdade. A tendência é que Shio realmente teria um interesse sexual por Satou após crescer, e isso poderia ser algo curioso de ser explorado. Satou ainda veria sexo como algo sujo mesmo com Shio? Ou talvez ela não tenha problema com sexo, e por ser Shio teria mais sentido? Infelizmente (ou felizmente dependendo do seu ponto de vista), isso pode ser algo que a série nunca venha a trabalhar, embora é possível dar uma ideia de até que ponto a adoração (amor) de Satou por Shio vai.

Então temos o professor, alguém que a luxúria é dirigida diretamente a Satou ao invés de terceiros. Essa interferência é importante para mostrar o porquê de Satou odiar tanto o mundo fora de seu apartamento. O mais interessante aqui é como a personagem não sente prazer em machucar os outros; de fato, Satou ficaria na sua se todo mundo a deixasse em paz. Isso porque o mundo real não importa para ela. Seu mundo ideal é a vida feliz e doce dentro do seu apartamento. Fora dele é a sociedade que ela precisa enfrentar para proteger o seu castelo, como ela mesmo fala. Então, quando ela é abordada por terceiros tentando interferir em sua vida é quando ela passa a sentir o gosto amargo do mundo de fora. Do seu ponto de vista, ela não está errada por tentar se livrar disso. Satou está tentando viver o que considera sua vida perfeita, mas precisa lidar com terceiros em seu caminho tentando satisfazer seus próprios desejos, o que ela considera uma forma distorcida de amor.

Por isso é importante notar como esse anime não funcionaria com uma Shio adolescente, por mais que a ideia de pedofilia possa incomodar. O sentimento de Shio e Satou é consensual. Que tipo de obstáculo teria para evitar duas garotas adolescente que se amam de ficar juntas? É claro, tendo assassinato no meio, a situação complica. Mas o maior problema da relação das duas no momento não é esse. O corpo escondido ainda não se tornou um problema para Satou. Se Shio fosse uma garota mais velha, a história até então seria completamente diferente. Também seria impossível associar o amor de Satou à inocência, como ela faz.

E então chegamos à Suu, a colega de Satou que tem seu próprio desejo, e mais uma vez Satou é o alvo desse. Dessa vez, porém, o sentimento de Suu não é inerentemente sexual. Seu anseio por Satou é muito mais psicológico e sentimental do que físico. Naturalmente, Satou ainda a rejeita, apesar de lidar com a situação de forma menos violenta que os outros casos, o que mostra como ela vai sempre procurar a forma mais lógica de escapar de qualquer situação. O mais importante dessa interação é a revelação de que, no psicológico de Satou, falar que ama alguém diferente de Shio é pior que assassinato. Após encontrar Shio sofrendo em sua casa, e pensar que isso era uma punição por seu crime, o que veio a sua mente foi a garota que ela falou amar antes, não a pessoa desconhecida que assassinou.

É possível dizer que Happy Sugar Life é forçado, onde quase todo mundo é uma pessoa louca. O que não é bem mentira, mas essa batalha de Satou contra diferentes tipos de amor é quase poética, e acho difícil pensar em uma outra maneira de colocar. Dito isso, é uma história amoral com praticamente todo mundo sendo uma pessoa terrível ou doente. E ainda assim, a história ainda tenta te fazer ver como a vida entre Satou e Shio é algo bonito. Essa mistura de cenas bonitinhas e cenas doentes é proposital, em que a intenção é exatamente desafiar o público a torcer por essas personagens apesar das ações horríveis que fazem.

Porém, mesmo considerando o quão surreal a história é, algo que acho mais forçado do que seria necessário é a obsessão de Mitsuboshi com Shio. Ficar fascinado com um cartaz aleatório de uma criança para curar seu trauma soa muito conveniente, e é claramente somente uma forma de forçar o personagem a interagir com a história. Isso foi um dos primeiros acontecimentos, porém, e Mitsuboshi é um personagem que já estava na história original que o autor fez antes da série, então é entendível que foi difícil encaixar ele na história. Ah sim, há uma história original de um só capítulo onde os protagonistas são somente Satou, Shio e Mitsuboshi. E o resultado é… curioso, para dizer no mínimo. O quanto daquela ideia será seguida no plot principal é difícil dizer, visto que os próprios temas parecem ser completamente diferentes. Digamos somente que na história original, Satou termina conseguindo o que pretende.

A adaptação até agora consegue captar bem o mangá de uma forma melhor do que esperado, visto como o estúdio é novo. O mangá utiliza da quadrinização para criar efeitos no modo como a história é contada, e o anime conseguiu transportar isso de formas interessantes. Além de que algumas cenas foram adicionadas que não se encontram no original, como a cena da Suu cheirando a roupa da Satou ou da Satou tirando os olhos dos delinquentes no parque (no mangá há somente a parte onde Satou escuta o caso de sua colega). Basicamente nada importante é cortado e mesmo algumas cenas de extras são incluídas.


Isso é meio preocupante, porém, visto que a cena inicial do anime nos mostra algo que potencialmente está para acontecer no mangá. Há dicas naquela cenas de coisas que aconteceram no capítulo 37. O problema é que o conteúdo animado no episódio 5 equivale ao conteúdo do capítulo 11 do mangá. O pacing do anime é bom, mas é impossível continuar seguindo-o sem uma segunda temporada, o que parece improvável de acontecer. Então, para pessoas que gostam do anime até então, eu realmente recomendo pegar o mangá para ler assim que este acabar. Há ainda a possibilidade que uma segunda temporada já está planejada só para terminar a história (que parece estar no fim no mangá também), mas não acredito muito que seja o caso.

Raizon não sabe o que escrever aqui, então essa descrição provisória provavelmente é a definitiva.

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