REVIEW IN A BOX #02:BANANA FISH 1-3

REVIEW IN A BOX #02:BANANA FISH 1-3

[CONTÉM SPOILERS]

Banana Fish é um mangá que, fora do seus status de clássico, nunca me chamou muita atenção. O pouco que sabia sobre a trama e o fato de envolver violência, drogas e estupro eram o suficiente para manter minha curiosidade sobre a sua influência em outros mangás do gênero ao longo dos anos bem contida. E então surgiu a possibilidade de acompanhar essa historia como anime, com um staff promissor e possivelmente adaptações que beneficiem a série de alguma forma.

Não é raro hoje em dia termos adaptações de obras dos 70 ou 80. Na verdade, adaptações em geral estão sendo o foco de muitas produções, visto o risco que é apostar num IP original, o que faz com que mesmo obras de grande sucesso de décadas atrás ainda sejam uma opção melhor. Com o pretexto de comemorar um marco de anos da franquia, muitos clássicos que nunca conseguiram espaço na mídia estão recebendo adaptações. Em alguns casos, entretanto, basta apenas ter uma pessoa chave com influência que sonhava em adaptar a obra um dia – e esse é o caso de Banana Fish.

Com direção de Utsumi Hiroko, famosa por seus trabalhos na Kyoto Animation, principalmente pela sua direção em Free!, o anime de Banana Fish toma uma personalidade mais extravagante. Com cenários utilizando de cores vibrantes, a cidade de Nova Iorque em que o anime se ambienta se torna viva e um reflexo das pessoas que moram lá – mesmo que o foco do anime seja uma contradição disso.

Mesmo na adaptação dos designs dos personagens, por mais que ainda seja notável o traço característico da época, eles tomam formas mais expressivas, com penteados mais detalhados e coloridos, como a cidade que os rodeia, que os personalizam de forma mais única.

A contradição entre a beleza da cidade e a violência que somos apresentados também é personificada no seu protagonista, Ash. Um belo e carismático adolescente, Ash consegue ter a confiança dos seu companheiros, ao mesmo tempo que mantém aqueles que o desafiam (e de fato tem mais poder que ele) em cheque. A sua relação com Dino, o don mais poderoso da cidade, estabelece bem isso. Por mais que Ash seja incapaz de escapar das mãos de Dino, ele também não consegue manter Ash no seu controle, que tenta sempre se impor para provar que os dois estão num falso pé de igualdade. Os dois têm noção de que existe uma disputa de poder entre eles, mas vivem um relacionamento de aparências, com Dino se vendo como uma distorcida figura paterna e amante ao mesmo tempo.

Os encantos de Ash também atiçam Marvin, um dos capangas de Dino, que tem um passado abusivo com Ash. Isso levanta um ponto bem problemático em Banana Fish: a representação dos gays como pessoas abusivas. Considerando a influência que ele teve no gênero Yaoi, não me surpreende tanto que ele tenha elementos do tipo. Por outro lado, não sinto que existe uma fetichização na forma como o anime lida com os relacionamentos abusivos e cenas de assédio sexual, que funcionam na construção do drama e na caracterização de Ash como um personagem trágico.

O primeiro episódio serve bem para apresentar Ash e tudo o que rodeia. Somos apresentados ao seu irmão Griffin, um veterano de guerra que se encontra em estado vegetativo. Suas únicas palavras são o que parecem ser a engrenagem que move o grande mistério da trama: “Banana Fish”. Em busca de salvar o irmão e entender o responsável por seu estado atual, Ash quer uma resposta para essas enigmáticas palavras: seria “Banana Fish” um objeto, uma pessoa ou uma organização?

Quando Ash percebe algo suspeito com os membros da sua gangue, isso acaba o levando ao que parece ser uma pista para este mistério: um homem ferido recita as mesmas palavras e o entrega um tipo de pingente, em que havia uma misteriosa substância escondida. Ash logo percebe que Dino é o responsável por aquilo e que há algo maior por trás daquilo, mas Dino também se mostra sagaz em perceber que Ash também está escondido o que ele busca. Mantendo um jogo de aparências e percebendo que não conseguiria tirar nenhuma informação de Ash diretamente, Dino comanda que seus capangas o torturem.

Ao mesmo tempo que a trama se monta e tudo está contra Ash, somos apresentados a Eiji, um fotógrafo japonês que pretende fazer uma reportagem sobre as gangues de Nova Iorque. Eiji conhece a reputação de Ash e se encanta com as histórias sobre seu carisma, que encara de uma forma inocente, como uma criança que não consegue enxergar malícia no mundo das gangues. Ash, por outro lado, também se vê encantado pela inocência de Eiji. Como alguém que vive num mundo violento em que as relações se dão pelo medo e controle, que o prende como um pássaro numa gaiola, Eiji é algo que o remete a algo puro e livre – ao que ele tanto busca. É o que faz Ash confiar tanto em Eiji quando se encontram pela primeira vez, demonstrando pela fato dele emprestar sua arma, algo que tem um forte valor sentimental para ele – e que, bem, também pode indicar uma metáfora mais sexual da relação entre os dois.

É então que Marvin e Arthur, um dos membros da sua gangue que guarda rancor por Ash, decidem colocar seu plano em ação e raptar Skip, um garoto que tem uma relação bem próxima com Ash. Eiji se vê no meio daquele conflito e acaba sendo raptado e mantido como refém ao lado de Skip, uma clara armadilha para atrair Ash, que decide se entregar mesmo assim.

Ash é torturado por Marvin, mas se aproveita da relação com Marvin para atraí-lo e planejar seu plano de fuga. Com Skip e Eiji ao seu lado, os três acabam parando num beco sem saída e tudo parece estar perdido. Eis que Eiji diz ser um atleta competente na modalidade salto com vara, arriscando pular o que parecia ser um feito improvável com um cano enferrujado. Numa belíssima sequência, vemos Eiji conseguir essa façanha que, aos olhos, de Ash, constrói mais ainda a imagem de Eiji como um pássaro, voando livre pelos céus – o que também faz um paralelo com a forma mítica como Eiji o via através da lente da câmera.

Eiji consegue avisar a polícia a tempo, mas Skip acaba morto como retaliação nas mãos de Marvin. Enfurecido, Ash busca vingança, mas, ao chegar no apartamento de Marvin, o encontra morto. Percebendo que caiu numa armadilha para incriminá-lo, Ash agora precisa provar sua inocência.

Após ser internado pelos seus ferimentos, Ash se reencontra com Eiji, na cena que talvez seja a mais emblemática na relação dos dois. Eiji quer convencer Ash de deixar a sua luta com Dino e a máfia local nas mãos da polícia. Ele sabe agora do seu passado abusivo de Ash e o vê agora como alguém frágil, enquanto Ash expressa abertamente sua inveja pela forma livre que Eiji vive sua vida. Os dois tem um momento de contemplação em que Eiji consegue entender a decisão de Ash sem ter que questioná-lo.

Eiji, se sentindo impotente por não ter impedido a decisão de Ash, quebra em lágrimas. É uma cena muito impactante, que expressa o quão Eiji se sente conectado com Ash, percebendo que, mesmo naquela situação debilitada e tudo que passou, ele consegue ser alguém tão forte. Embora não seja um shot tão ambicioso, o reflexo de Eiji chorando ao encarar suas próprias emoções é interessante na composição da direção como um tudo.

Pela influência de Dino, Ash é mandado para a prisão sem julgamento. Com receio dele ser atacado por outros presos, os investigadores o colocam sobre a proteção de Max, um jornalista que logo descobre ter uma relação muito próxima de Ash. Após ouvir Ash falar sobre “Banana Fish”, Max descobre que Ash é irmão de Griffin, seu companheiro de esquadrão durante a guerra do Iraque. Responsável por atirar nas pernas de Griffin e deixá-lo paraplégico após ele ter perdido o controle e matado seus companheiros, Max luta contra o seu sentimento de culpa há anos, o que o motivava na sua busca pelas misteriosas palavras recitadas por seu companheiro.

Max  comenta que não sabe ao certo o que “Banana Fish” significa, mas que provavelmente está ligado a uma rota de tráfico de drogas, revelando que o homem ferido que Ash encontrou ser um jornalista que também investigava isso há anos. Tudo agora parece se conectar, mas, por mais que ambos tenham o mesmo objetivo, Ash não consegue perdoar Max pelo o que ele fez com seu irmão e promete matá-lo. Da mesma forma, Max não consegue conviver com Ash, que o remete do seu passado com Griffin e a culpa que ele carrega.

O terceiro episódio tenta contrastar muito o drama de Max e Ash, que novamente se ver vítima de abuso sexual por outros presos, com cenas de humor que, dado o contexto, não teriam espaço, mas também não chegam a ser tão destoantes. Elas funcionam bem na construção da relação entre os dois e também servem como um respiro na trama, que fica cada vez mais complexa e sombria.

Embora a decisão de trazer o mangá para uma ambientação mais moderna não funcione tão bem em Banana Fish, com uma caracterização de Nova Iorque que talvez fosse caricata até pra época, é uma adaptação que consegue dar muita vida à ela e seus personagens, com sequências de ação frenéticas e bem coreografadas. A relação entre Ash e Eiji é com certeza o elemento mais fascinante no anime e a direção constrói muito bem os momentos em que isso é o foco. Por fim, Banana Fish consegue entregar tudo que o mangá era conhecido, com uma direção que tenta fazer jus ao seu status e tendo liberdade para transformá-lo em algo maior ainda.

Defensor da indústria de animação japonesa atual e de todos os mercados de nicho, Overkilledred luta contra a desinformação passada pelas mídias especializadas em cultura pop e tenta salvar o público da alienação.

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