REVIEW IN A BOX: DEVILMAN CRYBABY

Em comemoração aos 50 anos de carreira do autor Go Nagai, grandes dos seus clássicos estão recebendo novas adaptações, tal como uma nova série de Cutie Honey e um novo filme de Mazinger Z. Mas talvez a obra mais ambiciosa desses novos projetos seja Devilman Crybaby, uma adaptação “fiel” do mangá original, com direção do renomado diretor Maasaki Yuasa. Conhecido por Tatami Galaxy, Kaiba e Ping Pong, Yuasa traz todo seu estilo de animação psicodélica e uma direção forte, ao lado de outros animadores renomados.

Esse review contém spoilers

A história começa quando um garoto sensível e que facilmente cai no choro chamado Akira Fudo reencontra seu amigo de infância, Ryou, que revela ter descoberto a existência de demônios e o alerta que logo haverá uma guerra entre eles e os humanos. Como uma forma de combatê-los, Ryou convence Akira de ser possuído por um e tomar controle daquele ser, tornando assim o que Ryou intitula de “Devilman“.

Por mais que essa adaptação tenha uma pegada mais realista e tente contextualizar a história, fica claro logo no começo que ele ainda tenta pegar o espírito camp do mangá, quando Ryou surge para buscar Akira atirando com uma metralhadora do nada, algo que não gera muita reação dos personagens. É algo presente nos mangás de Go Nagai e que as adaptações sempre tentam trazer, mas que nessa adaptação pareceu um tanto desnecessário. Alguns momentos dramáticos não conseguiam ter o efeito desejado pela forma exagerada e cômica que aconteciam. É algo que serve apenas como um elemento gratuito que cria um vínculo com o mangá, mesmo embora ele tente ser algo diferente.

Mas Devilman Crybaby ainda é uma adaptação ousada: não só pelo seu estilo visual, mas também porque tenta ser mais fiel à obra original, um mangá extremamente violento e chocante. É uma adaptação que não só pega esses elementos, como também extrapola o fator sexual. Os demônios são criaturas que vivem da forma mais natural e instintiva possível, consumidas pelo desejo por sangue e sua luxúria – tanto que o ritual necessário para invocá-los envolve ambas as coisas –, então foi interessante o anime ter ressaltado isso. O que é estranho, embora, é como isso é um elemento comum no começo, que parece tentar explorar mais esse conceito e falar algo a mais sobre a relação entre humanos e demônios, mas logo se perde quando a trama avança. Parece algo que quiseram adicionar na adaptação, mas que não encaixou bem ao seguir a estrutura do mangá, em meio a uma indecisão em ser totalmente fiel ou tentar fazer algo novo. E sinto que muita coisa no anime sofreu disso.

O anime parece sempre ficar nesse meio-termo de seguir o mangá ou explorar outras ideias, que torna tudo muito desconexo quando tenta fazer o segundo caso, ou simplesmente não desenvolve isso de forma interessante. O fato dos personagens estarem num time de corrida e a forma como os  Devilman se destacam correndo é algo decorrente nele e tem um valor narrativo, mas não devia ser de fato algo tão relevante. Eu entendo o que o anime queria dizer com isso, com toda a questão de como os humanos vivem de uma forma não natural e como isso mostra como eles são inferiores, mas não acho que seja a melhor forma de desenvolver isso. Assim como Nagai tenta caracterizar Akira como alguém de bom coração no mangá e o coloca dizendo que sente pena de uma bola de futebol sendo chutada, é algo tão banal e caricato que por mais que você entenda a intenção, não há algo profundo sendo dito.

Por mais fantástica que seja a animação e o estilo distorcido e psicodélico do Yuasa seja compatível com o traço do mangá, muitas das cenas adaptadas não são tão impactantes quanto na obra original. Toda a batalha da Sirene não consegue passar a intensidade e a brutalidade que havia no mangá, assim como a empatia que isso gera em Akira. Muito dos dilemas de Akira e a forma como aquilo o rasga por dentro é algo que o mangá também consegue transpor muito bem, mas que o anime não conseguiu tratar muito bem.

Os personagens, no geral, são um problema. Boa parte deles são descartáveis e simplesmente circundam a trama. Pior, eles são extremamente estoicos e parecem apáticos ao que está acontecendo com o mundo, e tomam decisões que não dá pra entender. Talvez o melhor exemplo seja a Miki, o par romântico de Akira no mangá, que teve um destaque maior para a relação entre os dois ser mais impactante. Só que o problema é a forma como enaltecem tanto a personagem e a colocam como alguém compreensiva e solidária com todos – quase como uma figura de uma santa –,  mas de forma que ela pareça desconexa com tudo que está acontecendo, com a sua relação com Akira sendo algo mais distante ainda, e a torna mais conceito do que uma personagem.

Ryou é um personagem misterioso em todas as adaptações de Devilman, sendo o principal desencadeador da trama principal, e sua relação com Akira talvez seja o elemento mais emblemático do mangá. Crybaby tentou trabalhar isso melhor o tornando mais proeminente na trama, ao mesmo tempo em que o caracterizou como alguém extremamente psicótico e amoral, o oposto de Akira. E isso torna a relação dos dois mais distante ainda. Por mais que a intenção seja de fato mostrar como eles são opostos um do outro e isso gera algum tipo de empatia de ambos os lados, não há nenhuma demonstração de afeto entres eles que indique isso. Não há algo que torne a relação dos dois especial ou até mesmo crível, com Akira tendo todos os motivos para odiá-lo.

Em Crybaby, Ryou é muito mais claro com as suas intenções, por mais que o próprio não perceba. Ele é o principal responsável por tornar a existência dos demônios algo público e gerar todo o conflito entre as duas espécies. Isso é algo bem confuso, considerando que ele chega a níveis extremos de matar pessoas que haviam descoberto sobre demônios para manter aquilo como uma guerra secreta. Afinal, se ele queria expor a existência deles, por que precisaria ser daquela forma e não apenas com as suas próprias filmagens? No mangá, os demônios deliberadamente declaram guerra aos humanos e começam uma possessão em massa, para que assim possam instaurar a paranoia entre os mesmos e criar uma nova era de Inquisição. E isso era um resultado óbvio, mas por alguma razão ambos não percebem. É compreensível que ele tenha feito isso seguindo seus instintos, mas qual o motivo de Akira concordar com seus planos? Por mais claro que sejam as suas intenções em criar uma guerra entre humanos e demônios, e as consequências que isso teria psicologicamente nas pessoas, Akira não consegue se impor e apenas segue cegamente o que Ryou pede. Isso talvez venha do próprio mangá e como Akira não reluta em aceitar participar de uma orgia com drogas e ser possuído por um demônio quando Ryou o aconselha, simplesmente porque o plot só aconteceria assim, mas isso funciona (ou você aceita melhor) em um mangá dos anos 70. Num anime que tenta contextualizar a trama e dá mais peso dramático às cenas, parece que tudo acontece de forma conveniente e sem razão lógica.

Por outro lado, o arco de Akira é bem construído nessa adaptação. Toda a sua sensibilidade e a empatia é algo presente durante todo o anime. Como o título do anime implica, ele é um “crybaby” que toma as dores de todo mundo e sempre tenta confortá-los. Mas a sua jornada é de um herói trágico, que perde seus valores quando é traído por suas convicções e percebe que não há valor em se autodeclarar humano quando eles não são diferentes dos demônios. Por mais que o anime não consiga transpor isso tão bem quanto o mangá, as cenas que transformam Akira num guerreiro caído ainda são desoladoras.

Outro problema é como o arco de outros personagens que se tornam Devilman não são interessantes e não conversam bem com o do Akira. Isso é algo que ele poderia ter feito melhor que o mangá. Spin-offs de Devilman costumam focar em outros personagens que se fundiram com demônios e tentam continuar vivendo em sociedade – ou combatendo os demônios, como o próprio Akira. Mas não foi bem o caso aqui. O anime trabalha mais a insegurança dos personagens e como a transformação os liberta. O que seria interessante se isso realmente fosse o foco, e não o conflito entre humanos e demônios. A história se encaminha levando em conta os dilemas de Akira e como ele, como um Devilman, deve se posicionar em relação a essa guerra e se os humanos merecem a sua compaixão. Ao invés de mostrar os Devilman se reunindo no final, como no mangá, o anime poderia ter aproveitado para trabalhá-los em conjunto com o arco de Akira. No final, parece que não serviram para nada e eram totalmente descartáveis da trama principal.

Devilman Crybaby é uma adaptação fiel na sua estrutura, ao mesmo tempo em que tenta inserir novas ideias, mas que falha na sua execução. É desconexo, com subplots desnecessários, e personagens rasos e sem propósito. Por mais que tecnicamente seja o que todos esperavam, não é algo que consiga compensar tudo que ele erra. Como adaptação de um mangá dos anos 70, por mais que tente contextualizá-lo, ainda traz as piores características da sua época de produção.

Defensor da indústria de animação japonesa atual e de todos os mercados de nicho, Overkilledred luta contra a desinformação passada pelas mídias especializadas em cultura pop e tenta salvar o público da alienação.

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