RECOMENDAÇÕES IN A BOX #4: FUKUMOTO NOBUYUKI

Conhecido por seu traço bem peculiar e suas histórias sobre apostas, Fukumoto Nobuyuki é um autor extremamente icônico e aclamado por seu profundo entendimento da natureza humana. Suas histórias são, na sua maioria, sobre apostas e o submundo das gangues e máfias, com pessoas marginalizadas tentando se livrar de dívidas em jogos letais. Seus personagens falham, são egoístas, traem e sempre sucumbem a ganância – mas também se mostram muito humanos nos momentos em que se encontram em situações desesperadoras. A tensão que ele constrói em seus jogos é incrível, com muitas reviravoltas e monólogos internos dos personagens, sempre te fazendo questionar o desfecho deles. E com suas excêntricas analogias, consegue passar a exata sensação que os personagens estão sentindo. Ele é um autor que consegue te fazer refletir sobre quem somos como membros de uma sociedade e o nosso papel nela, entre outras questões existencialistas.

Fukumoto publica mangás há mais de 30 anos e muitos deles estão em publicação há mais de 20 anos. Sua arte, conhecida por ser bem caricatura, com longos narizes e queixos de todas as formas, é algo que ele abraçou como uma característica dos seus mangás e não mudou muito nesses anos todos. Seu primeiro mangá a virar uma série, Atsuize Pen-chan, tem uma premissa recorrente em muito dos seus mangás: partidas de mahjong. Embora já envolvesse apostas com mafiosos, suas primeiras obras ainda tinham um tom mais cômico e mais rotineiro.

Em Ten, seu primeiro sucesso, Fukumoto aos poucos vai deixando de lado o humor e o tom descontraído, presente nos primeiros volumes, para trabalhar os personagens de forma mais dramática e algo mais próximo do seu estilo atual. É também onde ele apresenta Akagi Shigeru, seu personagem mais renomado e mais complexo, que depois ganharia um spin-off próprio. Com partidas empolgantes e dramáticas, Ten se transforma aos poucos no que faria o Fukumoto ser tão consagrado. Principalmente seus últimos volumes, nos quais ele fantasticamente nos faz refletir sobre o que é de fato viver. É complicado falar deles sem entrar em spoiler, mas foi certamente uma das coisas mais únicas que li em mangás.

Akagi: o confronto de décadas

Akagi é um mangá curioso. Ele começou como um spin-off de Ten, mas que continua sendo publicado até hoje, mais de 15 anos depois do fim do seu mangá de origem. A história é sobre um jovem chamado Akagi, que está sempre em busca de algum desafio com risco de morte para conseguir adrenalina na sua vida. E ele encontra isso em jogos clandestinos de mahjong, disputados por mafiosos e milionários excêntricos.

Diferente dos típicos protagonistas do Fukumoto, Akagi justifica sua existência simplesmente por jogos de aposta. Sua raison d’etre é viver em situações extremas em que ele possa apostar sua própria vida e nunca ceder ao seu adversário. Ele não faz isso porque está endividado ou porque quer enriquecer, mas sim porque é o tipo de confronto que melhor o define – e por isso ele sempre prevalece.

Mas talvez o que melhor defina o mangá seja a relação de Akagi com Washizu, seu nêmesis numa batalha que durou mais de 10 anos de publicação. Parece absurdo pensar que um jogo de apostas entre os dois (numa noite!) durou tanto assim, mas ele publicava no máximo dois volumes por ano, já que costuma publicar vários mangás ao mesmo tempo. Nela, os participantes jogam uma variação criada pelo próprio Washizu, chamada do “Washizu Mahjong”, no qual três das quarto de cada peça são transparentes. As apostas também não se limitam apenas a dinheiro, mas ao que sádico Washizu mais gostar de tomar das pessoas: sangue. Seu prazer em matar lentamente seus adversários, removendo seu sangue aos poucos, é o thrill que ele procura nos jogos. Mas o que diabos pode ter acontecido numa partida de mahjong  assim para durar tanto?

A construção do duelo entre os dois é talvez a melhor e pior coisa do Fukumoto. Em cada jogada, por mais simples que seja, há sempre um monologo interno dos personagens. Tudo é construído para entendermos  o que os personagens estão sentindo quando jogam uma peça, para criar uma atmosfera de tensão em que um erro é letal. Todos os dilemas e temores que uma leitura errada de um movimento pode causar são sempre discutindo a exaustão na mente do personagem. O tempo que acompanhamos em todos esses 10 anos é a percepção que os personagens têm da partida.

Washizu, que a princípio parecia ser só mais um oponente de Akagi e alguém insano, quase como de fato um monstro, se torna um dos protagonistas e toda sua construção como um humano se dá nos seus monólogos e sua motivação em derrotar Akagi. Ele logo se torna um personagem fascinante, que não só antagoniza Akagi, mas que também o completa – e vice versa. O que no começo era apenas um jogo de aposta e sobrevivência, logo se transforma numa batalha de egos e de reflexão por Washizu. Com muitas reviravoltas, é com certeza uma das experiências mais intrigantes de se acompanhar num mangá.

Akagi é realmente um personagem muito fascinante, o qual Ten já fez um bom trabalho em nos apresentar, e que transcendeu sua obra de origem, mas sua relação com Washizu nesse spin-off é algo que o torna ainda mais complexo.

Kaiji: jogos, trapaças e traições

Kaiji é com certeza seu mangá mais renomado e conhecido de todos, popularizado pelas duas temporadas em anime. A história segue Itou Kaiji, um jovem adulto que foi morar em Tóquio em busca de oportunidades, mas que logo se encontra desempregado e se envolvendo com jogos de apostas, numa vida em que não há perspectiva de futuro algum. Para piorar, um dos seus ex-colegas de trabalho, que havia pedido que ele fosse fiador em um empréstimo, some e ele arca com as dívidas. Ao ser confrontado por um agiota mafioso, sua única esperança de quitar a dívida é se envolvendo em um salão de apostas ilegal que ocorre num navio luxuoso. É assim que começa a sua jornada num mundo de trapaças, traições e ganância. O mangá é dividido entre partes, com cada arco envolvendo apostas diferentes.

Fukumoto mostra em Kaiji sua criatividade ao desenvolver jogos próprios, que embora funcionem com regras bastante simples, se demonstram complexos na forma como ele os executam. As apostas logo se transformam em disputas estratégicas, com Kaiji tendo que elaborar algum plano mirabolante e imprevisível, que surgem como um insight nos seus momentos mais desesperadores. As ideias fora da caixa de Fukumoto para encontrar uma solução dos seus próprios quebra-cabeças são algo que me fascinam em Kaiji, e ele sempre constrói um build up para que elas tenham mais impacto ainda.

O mais fascinante em Kaiji, embora, é o quão humano seu protagonista é. Por mais que ele acabe ajudando aqueles em situações parecidas com a dele, ele ainda se demonstra desprezível, egoísta e covarde em momentos de fraqueza, mas não de uma forma que o leitor o odeie por isso – e sim que se identifique. Ele age dessa forma não por ser um vilão ou um anti-herói, mas sim porque ele é suscetível ao erro e contradições como todo ser humano. Sua bravura é momentânea, porque ele sempre sucumbe a ganância. Seus choros de desespero ao fracassar são algo real, porque o coloca como patético, como alguém que, por mais que demonstrasse ter controle da situação, não luta contra sua natureza. Fukumoto não preserva Kaiji, não o coloca como heroico em momentos propícios, mas ainda sim o transforma em alguém empático na sua fraqueza que todos conhecemos.

A distorção, como uma onda, ao representar a sensação de desespero e de que tudo está perdido, é algo que consegue traduzir isso muito bem em cenas assim. A realidade ao redor do personagem parece instável, como se estivesse sendo sugado pelo buraco negro que o retira da realidade, porque o personagem de fato está negando ela. É algo que sua arte consegue evocar muito bem e que demonstra o seu domínio em representar emoções humanas.

As famosas onomatopeias “ざわ…ざわ…” para indicar uma situação inquietante também são uma marca registrada do Fukumoto e muito importantes na construção da tensão em Kaiji. Elas são algo muito impactante na página, quase como se o ar ao redor estivesse poluído por essa tensão e murmurasse – que foi de fato a solução do anime para representá-las.

Assim como ele, os outros personagens também se provam falhos. Traição é uma constante em Kaiji, independente da relação que se estabelece entre o leitor com o personagem. Todos eles são capazes de trair dada a situação. Kaiji entende muito bem isso, mas ao ser exposto a esse mundo, ele não aceita aquilo como realidade; pelo contrário, isso faz com que ele busque cada vez mais a parte boa das pessoas. Não é algo que surge da sua natureza ingênua, mas sim de um ideal que o distancie daquele mundo sujo  e cruel.

Kaiji é um ensaio sobre a natureza humana em situações extremas. Pessoas podem ser traiçoeiras e abandonarem outras por interesses pessoais, mas isso não define quem são, nem quem deveriam ser. Por mais que Kaiji sofra com a sua confiança em outras pessoas, ele ainda se apega aos seus ideias de que não somos preto e branco, mas sim seres complexos que se contradizem, impelidos por emoções momentâneas.

Saikyou Densetsu Kurosawa: o guerreiro solitário

Kurosawa não um mangá que envolve apostas e mafiosos. A história foca em Kurosawa, um homem solteiro nos seus quarenta anos, que trabalha como supervisor numa empresa de construção, e deseja ser reconhecido pelos seus colegas de trabalho. Todas as suas tentativas de ser popular entre eles acabam em mal entendidos, e ele se vê envolvendo em lutas contra delinquentes, no que parece ser o começo da sua lenda como o homem mais forte.

Assim como Kaiji, Kurosawa é um personagem alienado, que se arrepende das suas decisões de vida e vive uma vida insatisfatória. Ele se encara como um fracassado por ter uma profissão vista como fácil e que independe de quem faça, e está em constante luta contra a sua solidão por não ter amigos e não ter conseguido montar uma família na sua idade.

Embora ainda tenha elementos cômicos, a ansiedade que Kurosawa sente por seu isolamento social dita o tom do mangá. Ele não tem ambição alguma porque já perdeu as esperanças em mudar de vida. Sua perspectiva de vida é que, aos seus 40 anos, não há mais nada que ele possa fazer que gere diferença na sua vida. Tudo já é tarde demais e o arrependimento vai segui-lo para sempre.

O que lhe resta é ser aceito por aqueles ao seu redor, mas tudo que ele faz é mal interpretado e o leva à situações absurdas. Mas são nessas situações que Kurosawa realmente consegue brilhar e perceber que ele tem um desejo de viver muito forte ainda. Suas lutas contra delinquentes, que surgem de uma premissa cômica, se transformam em um palco no qual Kurosawa luta contra si mesmo e consegue aceitação por aqueles que o presenciam.

Kurosawa é um mangá sobre perseverança. Sobre encarar a vida como uma batalha constante, na qual você só perde se desistir de lutar. Kurosawa se envolve em lutas físicas que servem como a representação das suas angústias e que o fazem perceber que ele não precisa provar seu valor para os outros, e sim a si próprio.

O mangá ganhou uma continuação recente, intitulada Shin Kurosawa, que não recomendo ler, pois o final do mangá, na minha opinião, conclui perfeitamente o arco do personagem. Fukumoto tem um problema em não saber quando terminar um mangá, por mais impactante e conclusivo que seja o suposto final.

Tobaku Haouden Zero: o reino das apostas

Outra série dividia em partes, Zero é um mangá similar a Kaiji, com vários tipos de jogos de apostas acontecendo. Zero é um gênio que age como um Robin Hood moderno, roubando o dinheiro de mafiosos e doando para os pobres. Entretanto, quando seus companheiros são capturados por um grupo criminoso, Zero é mantido refém e forçado a participar de um torneio de apostas, organizado pelo um milionário excêntrico, em busca de jogadores talentosos.

Diferente de Kaiji, Zero não cria situações tão sombrias pelas apostas, mas tenta surpreender o leitor com enigmas e suas soluções, quase como um romance de detetive. Ainda há tensão nos jogos, mas não há tanta carga dramática como em seus outros mangás. As situações e os vilões são quase cartunescos de tão exageradas – que, por um lado, é o que faz Zero ser tão divertido.

Com um estilo mais descontraído e cartunesco, Zero talvez não seja o melhor mangá do Fukumoto, mas ainda consegue ser divertido pela criatividade dos jogos e as situações exageradas em que os personagens se encontram. É um mangá em que Fukumoto extrapola seus quebra-cabeças e tenta apenas entreter com suas soluções mirabolantes e trívias de conhecimento geral.

Fukumoto Nobuyuki é um autor que suas obras eu carrego para a vida e espero que ele seja mais reconhecido através desse post. Talvez seu traço seja uma barreira para muitos, mas provavelmente você vai se acostumar. Há muitos outros mangás do Fukumoto que merecem leitura, como Buraiden Gai, Gin to Kin e suas colaborações com Kawaguchi Kaiji (autor que o nome é homenageado pelo personagem), Seizon Life e Kokuhaku, mas que estenderia demais o post para falar sobre. Fica a recomendação deles, de qualquer forma.

Overkilledred

Escarlate como o inferno, Overkilledred é um dos admins do blog e adora utilizar terminologias em inglês por se achar cool. Defensor da indústria de animação japonesa atual e de todos os mercados de nicho, ele luta contra a desinformação passada pelas mídias especializadas em cultura pop e tenta salvar o público da alienação.

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