RECOMENDAÇÕES IN A BOX #3: MATSUMOTO RIE

“Tudo pode acontecer em um mundo como este.”

Falar sobre Matsumoto Rie é um trabalho ardiloso, e maravilhoso. Enquanto muitos diretores possuem trabalhos facilmente reconhecíveis a partir de certas técnicas ou clichês bastante usados por eles, como fazer para reconhecer o de alguém que não possui tantas obras sob seu nome para analisarmos? Pensando nisso, decidi olhar a fundo todos os três principais animês (um filme e duas séries) que ela dirigiu para encontrar minhas respostas: Heartcatch Precure! Hana no Miyako de Fashion Show… Desu ka?! (2010), Kyousougiga (2013) e Kekkai Sensen (2015).

Uma das minhas principais respostas foi voltar à primeira coisa que me veio à cabeça quando pensei em escrever sobre ela: família. Matsumoto detém um carinho especial para falar sobre família. Esse que é o primeiro meio de influência que temos e que define tantos traços do que viremos a ser um dia, ou como influenciamos essas pessoas. Há muito a se falar sobre isso em todos esses três animês.

INTRODUZINDO:
HeartCatch PreCure!

A premissa do filme de Heartcatch é simples: as quatro meninas principais do série, Tsubomi, Erika, Itsuki e Yuri, estão em uma viagem a Paris. Elas atuam secretamente como as lendárias Precure, protegendo os sentimentos das pessoas dos Apóstolos do Deserto, que são, bem, os vilões que querem transformar o mundo em deserto sem cores (os temas estéticos principais do animê são ‘flores e moda’). O filme é uma side-story onde elas encontram Olivier, um menino que foi adotado pelo Barão Salamander, um Apóstolo do Deserto, enquanto ele está fugindo desse Barão.

Oliver-chan e Tsubomi-chan.

Olivier sempre sentiu-se sozinho, abandonado por todos. O Barão foi quem adotou ele, mas a relação dos dois é problemática por Olivier não concordar com os planos malignos de seu pai, digamos. Sendo assim, o animê lida com ele como se fosse uma criança perdida, e o papel das heroínas é lhe dar o calor e o afeto de uma família. Tsubomi tem a preocupação de uma mãe (ela assume esse papel no filme). Erika fica em cargo da diversão. Itsuki é alguém que conversa com ele de igual para igual. E Yuri fica com ensinamentos.

Yuri-chan e Itsuki-chan.

Logo quando elas fazem um primeiro contato com ele, Olivier diz que não quer continuar interagindo com elas para não incomodar pessoas que ele sequer conhece. Eis que Erika faz com Olivier a brincadeira de tocar nos ombros de alguém e levantar o dedo para que ele encoste na bochecha da pessoa. É um gesto bobo, ao mesmo tempo que gentil, de mostrar interesse na pessoa, de querer intimidade (há outra utilização dessa mesma brincadeira em um dos primeiros episódios de Kyousougiga). Logo em seguida, Erika se apresenta, e as outras meninas também. Agora elas são conhecidas de Olivier e estão prontas para cuidar do bem estar e necessidades dele.

Erika brincando com Olivier em Heartcatch

Kekkai Sensen e kyousougiga:
AS DUAS SÉRIES e paralelos

Sinopse de Kekkai Sensen: conta a história de Leonardo Watch e suas aventuras na cidade de Hellsalem’s Lot (antiga Nova Iorque). A Cidade de Hellsalem’s Lot ficou conhecida pela grande catástrofe, nomeada O Grande Colapso, que ocorreu há uns anos, onde um portal ligado ao ‘submundo’ foi criado na cidade. Na história, monstros inimagináveis e eventos bizarros ocorrem.

Um desses eventos aconteceu com Leo e sua irmã. Uma criatura misteriosa apareceu bem à sua frente e pediu para um dos dois escolher ser “uma testemunha”, o que significava que o outro perderia sua visão. Michella, a irmã de Leo, ofereceu-se, e, em troca, Leo ganhou Os Olhos de Deus, que podem ver coisas que seres humanos normais não podem. Determinado a descobrir sobre os mistérios dessa entidade e encontrar um jeito de ajudar sua irmã, Leo se muda para Hellsalem’s Lot atrás do grupo Libra, que lida com várias questões relacionadas ao submundo. Leo eventualmente acaba encontrando pessoas do Libra e adentrando o grupo, que constitui em: Klaus (líder do grupo); Zapp (cara de temperamento ruim que pega no pé do Leo); Chain (a mulher lobo); Steven (segundo em comando); K.K. (sniper misteriosa) e Gilbert (mordomo do Klaus).

Lá em Hellsalem’s Lot, Leo encontra White e Black. White é uma amiga que Leo fez uma vez em que esteve hospitalizado, e Black é o irmão gêmeo dela, cujo corpo ele divide com o Rei do Desespero.

Leo-chan e White.

Klaus.

Sinopse de Kyousougiga: começa com Myoue, um monge excêntrico da cidade de Kyoto cujas ilustrações que desenha tomam vida. Um dia, uma de suas ilustrações, uma coelhinha chamada Koto, apaixona-se por ele e acaba fazendo um trato com uma bodisatva (figura iluminada dentro do Budismo) para ter um corpo emprestado e confessar seu amor. Eles têm três filhos: Kurama e Yase, que são pinturas que Myoue fez; e Yakushimaru, um garoto que eles adotou.

As pessoas da capital se incomodavam com essa família, no entanto, e eles decidem se mudar para Kyoto (鏡都, escrita como “Capital do Espelho”, referência a Alice no País das Maravilhas, assim como milhares de outras referências na série), uma cidade que Myoue desenhou. Todos vivem lá felizes por um bom tempo até Koto e Myoue deciderem ir embora porque o tempo do trato que Koto havia feito com a bodisatva está se esgotando. Os três filhos, abandonados, precisam tomar conta da cidade sozinhos e passam muito, muito tempo esperando pelos pais. Yakushimaru vira o novo monge da cidade, passando a ser chamado de todos por Myoue.

Um belo dia, nesta cidade onde tudo permanece o mesmo – inclusive as pessoas, de onde ninguém entra ou sai -, uma menina chamada Koto aparece, para a surpresa de todos. Os três irmãos ficam muito interessados nela por ter conseguido chegar até Kyoto (鏡都) e decidem se tomar conta dela para descobrir se ela pode trazer verdades sobre o desaparecimento de seus pais.

(Para facilitar as coisas, chamarei Yakushimaru simplesmente pelo seu primeiro nome e o monge pai de Myoue; e, como temos duas Kotos, utilizarei honoríficos para elas: a mãe deles fica Koto-san e a menina fica Koto-chan.)

Koto-chan (esquerda) e Koto-san (direita).
Yase (esquerda) e Kurama (direita).
Myoue brincando com Yakushimaru.

É incrível como todos personagens possuem grande personalidade e conseguem ser adoráveis em Kekkai Sensen ou Kyousougiga. Diferenciam-se um pouco de Heartcatch nesse sentido por não trabalharem com vilões tão preto e branco – se bem que Heartcatch em si, em comparação a muitos outros Precure (ao menos os que vi), possui vilões mais bem trabalhados, com intenções mais complexas. De qualquer forma, o elenco principal, antagonistas, personagens secundárias ou episódicas, todas são muito bem carismáticas nas outras duas obras. Os arquétipos que são colocados nelas nunca estão lá para defini-las, mas sim como exibição da perspectiva de alguma outra personagem, normalmente de protagonistas. A Yase e o Kurama em Kyousougiga, por exemplo, são apresentados como irmães de Yakushimaru, com suas qualidades e seus defeitos. Em vários episódios onde Koto-chan, a protagonista, os encontra, no entanto, servem como “vilões da semana” em prol das cenas de ação ou de mistério.

Referências a arquétipos exagerados de animês ajudam a nos situar dentro do contexto das obras. Robôs gigantes e garotas mágicas dentro da literatura nonsense de Kyousougiga; artes marciais e ação policial dentro do drama teatral de Kekkai Sensen. Uma mistura de várias ideias amplia imensuravelmente nossas sensações e interpretações do que está à nossa frente. As formas de discutir as histórias pelas quais as personagens passam, como os sentimentos delas se enquadram em nossas experiências como espectadores.

Histórias da Matsumoto tratam de vários tipos de amor, mas sempre com um foco da história principal no amor fraternal. White e Black são personagens originais do animê que trazem essa relação entre irmãos servindo como paralelo para a relação de Leo com sua irmã; e não existe nada mais ‘Matsumoto Rie’ na hora de falar sobre amor, seja ele qual for, do que encher a história de paralelos. Podemos até dizer que essas comparações de perspectivas entre relacionamentos e entre personagens com pontos em comum, em si, é um dos fundamentos pelos quais Kyousougiga se guia. Mesmo o filme de Heartcatch coloca a Tsubomi como figura materna (ou uma irmã mais velha, dependendo de como vemos) em relação a Olivier, enquanto a história de vida de Olivier está completamente voltada ao seu relacionamento com seu pai. Sem contar toda a relação da infância das outras meninas que é trazida à tona pelos diálogos que elas têm com Olivier e as relações que elas tinham ou têm com seus pais.

Em Kekkai Sensen, nós vemos o retrato da infância de White e Black. Como uma não tinha os poderes, ou o “talento” que o outro possuía. Não há melhor lugar para retratar a infância do que o colégio —  e, no caso dessas personagens, o colégio normalmente traz memórias negativas. Ele reforça a solidão que se passava naquele tempo, porque é um lugar feito para você fazer amigues, como o primeiro lugar onde você cria um engajamento social. Ainda assim, para algumas pessoas, tem o efeito contrário, já que vê-se todo o mundo fazendo esses amigues enquanto você é deixade de lado, sempre. Você não faz parte daquele mundo, espiritualmente ou socialmente.

Em Kyousougiga, Koto-chan está literalmente sozinha. Abandonada, sem família, com um jeito “tomboy” que precisou adotar por ser dito a ela que assim ela seria mais forte para lidar com os perrengues da vida. Isso não a ajuda socialmente.

White, por outro lado, tem uma família, talvez até tivesse amigues, mas sente-se excluída e deixada de lado pelo próprio mundo que a concebeu. Essa é uma das histórias de infância e família trazidas por esse paralelo entre White/Black e Leo/Michella. O animê não teria condições de desenvolver todo o enredo da Michella e do Leo em doze episódios, mas uma adaptação dessa obra precisaria demonstrar, de várias formas, que esta se trata, de fato, de uma história de amor fraternal.

Um dos temas principais tanto de Kyousougiga quanto da história de White e Black é a morte. A efemeridade da vida e o que resta de nós depois que partimos. Colocar sentido em coisas simples, em laços de amor, em hobbies ou pequenos feitos.

Nessas discussões sobre vida e morte, encontramos mais temas proeminentes em obras de Matsumoto. Temas como criação do mundo, nascimento e renascimento, e como interpretamos isso na vida e nos sentimentos humanos, seja pela filosofia, religião ou qualquer outro elemento de nossas culturas. São assuntos até mencionados brevemente no filme de Heartcatch, mas ainda mais aprofundados na franquia Precure. É fascinante ver como trabalhar nessa série pode ter influenciado nas obras de Matsumoto.

técnicas, clichês e repetições

Há algo de muito peculiar na dinâmica dos diálogos em obras de Matsumoto. Para falar sobre isso, precisamos tocar na ideia de expressão corporal utilizada por ela. Diferente de muitos animês com histórias um tanto complexas, cheias de pontos de enredo a serem conectados, nem Kyousougiga, nem Kekkai sensen possuem conversar muito extensas ou descritivas, que se arrastam e requerem nossa atenção para juntar todas as informações das falas. Em vez disso, há muito foco em duas coisas: quaisquer imagens apresentadas no momento em que personagens estão se comunicando; e a semântica da fala dentro do contexto. Falas comumente acompanham gestos, abraços, uma mão levada a um rosto, um grito de emoção, seja esta qual for,  e por aí vai.

Em vez de nos encher de informações através de diálogos, Matsumoto utiliza palavras-chave. Expressões e frases que personagens vão mencionar uma vez, ou até repetir mais vezes para nos dar dicas sobre o que aquilo que essas personagens estão pensando. Ou, melhor ainda: o que é que de mais importante elas sabem e querem falar dentro daquela cena. Matsumoto traz a noção de que, por mais que nós tenhamos coisas a dizer, a maior parte de nossos pensamentos fica entranhada em algum lugar de nossas cabeças de onde eles não podem sair. Por isso as personagens em si não vão nos passar tanta informação pela fala direta. Nós conseguimos, porém, pescar essas palavras juntamente a suas atitudes e formar uma ideia geral do que as personagens querem dizer. Os eventos apresentados pelo roteiro possuem muito significado, assim como muitas das palavras ditas. Inclusive por isso ficaria pesado se tivéssemos que manusear entre essas falas importantes a ainda por cima a abundância de palavras.

Bem, por outro lado, é claro que isso não seria o suficiente para contar uma história. Ainda que as imagens passem muito mais ideias do que os diálogos diretos fazem, palavras-chave e frases de efeito não bastam para que consigamos entender uma história completa sem que surjam brechas e confusão em meio às nossas interpretações. Aí é que entra um fator adicional nessa transmissão de informações que personagens não querem nos passar diretamente para manter uma maior naturalidade dentro da história: os textos escritos.

Existe um balanço estético que precisa ser feito para que textos escritos chamem nossa atenção sem parecer fora do lugar em uma série, principalmente se você deseja utilizá-los com certa frequência. Por sorte, se existe algo que Matsumoto possui é um senso de estilística competente na hora de escolher a melhor forma para fazer proveito de tal recurso. Sendo assim, algumas informações importantes para entender o roteiro de algum episódio aparecem em forma de textos.

As câmeras distantes das personagens para mostrar todo seu corpo são muito presentes. Utilizar movimentos rápidos e bruscos para transmitir sensações para a audiência;  sutileza na execução da animação, mesmo para representar esses movimentos, mesclam harmoniosamente a expressividade – o montante de informações que ela traz —  com o aconchego que as personagens devem passar a espectadores. Não importa que você esteja chegando agora ou que não esteja acostumade com a dinâmica da série, a proposta é aceitar os sentimentos de todo o mundo, buscar empatia.

A falta de diálogos extensos em ambas obras é compensada, ainda, por personagens falando ao mesmo tempo. Esse tipo de atributo é um tanto incomum em animês por conta do roteiro e da questão da dublagem. Então, mesmo quando ele existe, só consegue ser fluido por pouco tempo. Matsumoto tenta aproveitar o máximo possível desse tempo e faz com essas conversas entrelaçadas soem tão naturais quanto são hilárias.

 

Uma trope em comum entre Kekkai Sensen e Kyousougiga são os seres monstruosos que dão vida a um local, que representam o local em si. Assim como Kekkai Sensen conta não só uma história de amor fraternal, mas também da cidade de Hellsalem’s Lot, Kyousougiga é, especificamente, uma história sobre uma família, e sobre a cidade de Kyoto (鏡都). Caracterizar esses locais torna-se uma tarefa de suma importância que é tomada com muito cuidado em ambos animês, com monstros bobinhos que podemos chamar de receptivos. Os esquemas de cores dos monstros nesses exemplos abaixo nos mostram a conexão entre esses grupos de criaturas.

Matsumoto tenta fazer o máximo que pode para que possamos nos sentir como reais espectadores de um evento. Uma das formas com que faz isso é através de várias câmeras, monitores, reflexos em vidros mostrando uma mesma cena pelo mesmo ângulo. Repetição, espelhos, contrastes. Ela não quer que nossas televisões e nossos monitores sejam uma mera conexão entre nossa realidade e a ficção, mas sim que imaginemos como se estivéssemos olhando diretamente para uma gravação de um acontecimento.

Existe uma cena construída de forma bem complexa em torno disso. Basicamente, há um âncora de TV comentando sobre como o mundo mudou desde o Grande Colapso, enquanto várias imagens de monstros e pessoas de Hellsalem’s Lot aparecem para representar esse mundo. Então, a câmera se afasta dessas imagens e mostra elas em um monitor ao lado do âncora em si falando tudo isso; e depois se afasta mais ainda, mostrando uma pessoa assistindo ao programa onde esse âncora aparece. Por fim, um último distanciamento ocorre até chegar do lado de fora de uma vitrine onde essa uma pessoa assiste ao programa. Leo, que, até há pouco, falava sobre sua rotina, aparece correndo no reflexo dessa vitrine.

Outra método utilizado por ela, mais comum, é o de trocar a câmera pelos olhos de alguém. Um olho mágico de uma porta, ou pálpebras se abrindo lentamente ao acordar, ou a câmera assumindo a visão de ume personagem ainda não apresentade, assoviando enquanto anda pela rua. Ainda que se trate de cenas banais, como uma conversa em um fast food, nós temos as principais angulações da cena com trocas entre os olhares de personagens, ou seja, em vez de haver um close mais perto de seus rostos, cada personagem é mostrado através da visão do outro no diálogo.

A cena acima, por exemplo, tem um momento onde um dos personagens derruba um copo de refrigerante e a perspectiva precisa ser trocada. A visão que temos agora é a de uma atendente do fast food olhando para eles, apesar de não vermos a atendente em nenhum momento (que é uma personagem recorrente e que depois se manifesta na própria cena). A cena em questão, que corre por uns três minutos, é conduzida majoritariamente dessa forma.

Há vários modos alternativos de trazer informação que deixam momentos que poderiam ser chatos ou repetitivos autênticos e frescos. Exemplos incluem narrações a partir de terceiros ou momentos e cenários mundanos destacados por símbolos de mangás, quadrinhos em geral, ou tropes engraçadas como pequenas flechinhas apontando para uma pessoa ou objeto que se quer realçar. Tanto Kyousougiga quanto Kekkai Sensen também possuem uma breve introdução antes das aberturas contextualizando a história. No caso de Kyousougiga, o narrador “genérico” é utilizado para esse propósito. Em Kekkai Sensen, Klaus toma esse papel.

Este ponto a seguir de Kekkai Sensen pode muito bem vir diretamente do mangá, mas cabe citar como também se encaixa muito bem no estilo de trabalhar com reflexos e perspectivas invertidas de Matsumoto.

Leo possui essa habilidade de ver coisas que seres humanos normais não conseguem ver. A partir do reflexo de um caminhão que vemos nos óculos dele, ele decide parar a moto. A imagem do caminhão é rápida o suficiente para não conseguirmos identificar o que é exatamente que Leo viu até ele perguntar para Zapp o que ele vê, no que Zapp responde: “é só um caminhão, não?”. Nós obviamente sabemos que será algo diferente disso no fim das contas, mas as imagens apresentadas até o momento, tanto pelo reflexo dos óculos dele quanto pelo caminhão em si que vemos em seguida, nos mostram que é algo que somente Leo consegue ver. Ao mesmo tempo, existe essa insinuação de que os olhos dele são a chave para entendermos o que há de errado naquela cena. Por mais que seja algo evidente, essas representações visuais facilitam as associações que fazemos ao ver todas essa sequência de imagem uma atrás da outra, incluindo o diálogo entre Leo e Zapp.

É impressionante como sempre há muita dramatização em quase tudo o que é feito na obra. Seja pelo uso inusitado de câmera lenta ou pelo enfrentamento de personagens com monstros e objetos colossais, a normalização do absurdo pode dar um sabor bem único a qualquer cena. Por isso é difícil pensar em Matsumoto encabeçada em qualquer projeto que não envolva fantasia e uma liberdade artística para o nonsense.

Notem o monstro gigante passeando na rua enquanto eles fazem um lanche

Como todos esses animês contam com um belo senso de humor, essa dramatização está relacionada à comédia também.

Há um momento em que Leo encontra uma evidência importante para algo, e ele revela para todo o mundo sem saber que é uma informação importante. Assim, todos tornam sua atenção a ele (até mesmo Zapp, que estava caindo de bêbado até segundos atrás), e o que antes era uma festa agora parece um interrogatório, ainda que se trate do mesmo cenário.

Outro exemplo de comédia muito dramatizada, no mesmo episódio, é quando Lucky Abrams aparece na frente de Zapp. Por ser um personagem que “atrai má sorte às pessoas à sua volta”, um caminhão explode quando ele menciona o nome de Zapp e um pedaço de vidro quebrado voa e atinge a cabeça do mesmo. Além dessa dramatização, temos mais uma pegada de câmera panorâmica para mostrar o absurdo da cena como um todo.

Kyousougiga possui todo um trabalho envolto na caracterização da cidade de Kyoto (鏡都); Kekkai Sensen, Nova Iorque. É notório como o design, a arte e a música de cada um realçam aspectos que definem cada uma. Vamos analisar um pouco o que Matsumoto faz para contribuir nesse quesito.

Em Kyousougiga vemos muitos instrumentos japoneses, mais gentileza nas interações de figurantes com personagens principais, sem muita algazarra quando se trata de figurantes e bastante paz de espírito. Estabilidade e vida mundana parecem emanar de cenas onde podemos ouvir sons da natureza. Já em kKekkai sensen é bastante corrida, com muitos barulhos de multidões e carros, pessoas gritando ou falando alto e uma sensação de infinitas possibilidades.

No lado de personagens, nota-se claramente que residentes de Hellsalem’s Lot vieram de todo e qualquer lugar. É uma grande metrópole do mundo, de tudo muito do que conhecemos culturalmente. Como se trata de um animê, espera-se que haja referências à cultura japonesa em determinados momentos (o que acontece), mas o foco é Nova Iorque e cultura ocidental, o que vê-se refletido na variedade de estéticas usadas para diferentes pontos e cenas da obra (luta live, zumbis, máfia, símbolos cristãos, esculturas ocidentais, grafites nos muros das cidades, etc.). Já Kyousougiga, como esperado, baseia-se na cultura, mitologia, religião e tradição japonesa. O que já é algo diverso por si só (vemos referências a filosofias e textos principalmente budistas), mas a ideia que é contrastada em relação a Kekkai Sensen é a de que, em Kyousougiga, nós temos um foco e aprofundamento nessas culturas. Enquanto isso, Kekkai Sensen se abstém de explorar uma estética específica mais a fundo e faz proveito de estereótipos.


Matsumoto adora panoramas. É um dos jeitos mais criativos que ela tem de mostrar a expansão das cenas de ação. Geralmente, a partir dessas câmeras, temos várias quadras de um mesmo bairro ou local genérico sendo mostradas, sejam prédios em Kekkai Sensen ou casas tradicionais japonesas em Kyousougiga. As explosões vão acontecendo e a câmera as acompanham. Quando paramos para perceber, a briga já tomou parte considerável do local. As proporções crescem ridiculamente e o que resta para o cenário são destroços. Sendo assim, as pessoas ativas na cena serão apenas as personagens que interessam para o momento, com quase ou nenhum figurante.

Isso ocorre em uma das cenas finais de Kyousougiga, e podemos ver também no oitavo episódio de Kekkai Sensen. Há um corte de cena entre a batalha que estava ocorrendo e o diálogo que personagens agora terão com o antagonista do episódio. Antes do corte, apenas três personagens do elenco principal estão presentes. Depois, o restante das personagens aparece e presencia o diálogo. Agora não temos uma visão tão ampla, mas sim mais ou menos na altura das personagens, já que com a cidade destruída como cenário nós já podemos visualizar pelos diferentes ângulos que a cena nos dá. Como todos os prédios vieram abaixo, não há sentido em querer continuar usando o panorama.

Muitos enquadramentos como os que veem abaixo correm ininterruptos por um bom tempo (o que pode variar entre uns 20 segundos a mais de um minuto). Quanto mais distante des personagens essas cenas são, maior a noção que elas nos dão de que aquele ambiente está vivo. Pequenos (e normalmente fofos) movimentos de personagens em um ambiente vasto nos dão uma ótima percepção da imensidão do mundo em comparação a eles e que, ainda assim, sempre há alguém se mexendo, sempre há vida. Às vezes as hiperbólicas reações das personagens ficam ainda mais exuberantes quando as vemos se mexendo tanto mesmo estando tão pequenas em comparação ao cenário. Ou mesmo que não estejam presentes nela, como quando personagens se falam por telefone e umas pequenas imagens representando os ruídos de suas falas ocupam boa parte da tela.

Um recurso estético que, a este ponto, já não deveria ser surpresa é o uso de música clássica por Matsumoto. Esse uso envolve um ambiente de Kekkai Sensen ou Kyousougiga que é mais pomposo e glamoroso em comparação ao resto, com arquiteturas e clichês narrativos aristocráticos — ou uma impressão delas. Como forma de chegar a esses locais, a música clássica sintetiza bem o que deveríamos sentir ao presenciá-los. Geralmente são lugares atribuídos a personagens que prezam a elegância e partem de uma visão de mundo muito forte, com um quê de ‘lealdade’ às suas filosofias, embora sejam personagens pouco flexíveis. Eles sustentam valores importantes para o bem comum das pessoas dentro de seus mundos, como Yase para sua família em Kyousougiga ou Klaus para Libra em Kekkai Sensen. Personagens que guardam com carinho e fervor esses valores. Infelizmente, eles têm dificuldades com mudanças, tanto internas quanto externas. Mas para isso existem protagonistas. É difícil deixar de pensar que a música clássica seja usada com tom irônico em certos instantes, também.

Dois dos episódios mais intrigantes dirigidos por Matsumoto são o episódio 00 de Kyousougiga e o último episódio de Kekkai Sensen. Eles recitam toda a história que ela quer contar a partir de praticamente todas as técnicas discutidas aqui, porém com um sabor um pouco em excesso, talvez picante demais: o “nonsense”. Não é nem questão de interpretação, ambos episódios são uma síntese desse conceito em forma de “Kyousougiga” ou “Kekkai Sensen”. Embora não seja necessário assistir ao episódio 00 de Kyousougiga, é bastante recomendável que você o faça antes de adentrar à série em si caso queira capturar a real essência de Matsumoto Rie.

Ambos episódios contam as histórias por inteiro. O último episódio de Kekkai Sensen por nos dar o fechamento da história, obviamente, e Kyousougiga 00 traz um ‘resumo do livro’ sem spoilers, com imagens tão importantes que nos faz questionar o que essa mulher estava pensando enquanto criava aquilo.

Uma proposta narrativa em Kyousougiga ausente em Kekkai Sensen é a das formas geométricas —  ao menos recorrentemente. Kyousougiga captura a maluquice de Matsumoto em um nível bem mais elevado do que essa outra obra, então a simetria de planos retos com círculos, quadrados, estrelas e outras formas cria um contraste que equilibra esse tom narrativo psicológico mais agressivo. As coisas parecem ter ordem mesmo que não entendamos o que está acontecendo na hora. Devido a essa ideia de simetria, também temos mais recortes cinematográficos estilo mangá.

                                                   Quadros mostrando o interior da casa de uma personagem.

Kyousougiga se permite quebrar algumas regras do roteiro em prol do entretenimento, algo que Kekkai Sensen teria mais dificuldade em executar. Logo no início do primeiro episódio, o primeiro personagem que nos é introduzido é o Myoue. Logo em seguida, Koto-san, a coelhinha que se apaixona por ele. Uma bodisatva que a observava oferece seu corpo para que a coelha possa entrar em contato com Myoue. Ela insiste: “se não intervirmos, ele nunca vai notar você. Estamos falando do Myoue, afinal de contas. Aquele Myoue”. A imagem de Myoue desapontado de estarem falando mal dele aparece em meio à cena, mesmo que ele não estivesse lá presente ouvindo elas. Esse recurso humorístico para reforçar a personalidade de diferentes personagens a qualquer momento sequer é usado muito mais vezes. Ele é extremamente sutil, na verdade, mas não é como se esse Myoue que aparece fosse a imaginação da coelhinha ou da bodisatva; é uma mera representação dele para manter a audiência próxima do personagem, algo que remete a um nonsense que vai além da proposta mais pé no chão de Kekkai Sensen.

As formas de mostrar passagem de tempo são inúmeras em Kyousougiga. Pode-se dizer que essa é uma das grandes brincadeiras visuais constantemente aplicadas ao longo da obra, especialmente no primeiro episódio, já que este faz um resumo dos primeiros anos de vida dessa família maluca.


Kyousougiga é um animê de fantasia. Mas é uma grande aventura, uma jornada, um épico. Essa história é contada através de conexões visuais entre uma cena e outra onde, muitas vezes, sequer podemos dizer onde se inicia ou termina uma cena.

Nós temos uma cena, por exemplo, com Myoue sentado em uma árvore, cochilando. Koto-san está dormindo em casa. Ambos estão tendo o mesmo sonho, de que o mundo irá colapsar devido à negligência dos dois. Koto-san acorda assustada, com as sombras dos galhos das árvores formando um tipo de labirinto em sua mente, de onde não há saída. Ela e Myoue, então, têm uma conversa sobre como ela não pode mais continuar tendo este corpo que tomou emprestado da bodisatva. Cada um de um lado da casa, separados pelas janelas grandonas. É como se eles estivessem sentindo estar em lugares diferentes, mas é aí que Myoue alfineta Koto: ele diz que ela estava sendo egoísta em ter ficado com ele e as crianças esse tempo todo sabendo que precisaria partir mais cedo ou mais tarde . Koto-san se desespera por esperar que ele também reconhecesse que foi negligente, e há um corte nessa divisão que antes havia entre os dois; imediatamente Myoue aparece ao lado de Koto, abraçando-a, mostrando que ele esteve com ela desde o início, cometendo os mesmos erros sabendo que não deveria. Agora as janelas de cada um dos dois fazem parte do mesmo plano. O quadro vai se afastando dos dois até mostrar as três crianças olhando para eles, no que aos poucos percebem que serão abandonadas. A câmera agora mostra as três crianças de frente e se afasta delas até elas fazerem parte de um único reflexo em uma gota de sangue, que pinga no chão para nos mostrar vagas memórias dos três em relação aos recém perdidos pais. Por fim, Yakushimaru aparece no meio da cena, destacado, com as contas de oração que Myoue confiou a ele para ser o novo monge da cidade, colocando toda essa responsabilidade absurda em seus ombros, ao passo que ele e Koto são vistos saindo pelos cantos da casa, como se nem tivessem se despedido direito.

Bem como explorar cenas que se tem mais facilidade de executar com animação, bem como tomadas clássicas de cinema, Matsumoto ainda testa uma direção teatral. Essa é uma parte onde a dramatização da história mais brilha, e podemos encontrar ainda no filme de Heartcatch Precure, além de em vários momentos em Kyousougiga.

Se em Precure esse recurso serve para causar conflito, em Kyousougiga serve, em maior parte, para criar um palco. A sensação de estarmos vendo uma peça de teatro é recorrente nas cenas em que es três irmães estão no Conselho Dos Três (um lugar que criaram para discutir questões sobre a cidade e sobre seus próprios futuros). No entanto, esses encontros não passam de formalidades, e por isso sentimos que nenhum des três é completamente honeste ume com outre nesses diálogos. A noção estilística – provida pela iluminação das cenas – de estarem “atuando” realça essa ideia.

                                      

                                      

O cenário que veem no vídeo logo acima (fonte: sakugabooru) é o principal cenário utilizado para contar sobre o passado dessa família, dos dias em que se tornaram uma família de verdade. Ao longo de todo o animê, vemos esse mesmo enquadramento como um palco desses flashbacks.

Matsumoto entende pessoas de uma forma que não pode ser colocada em palavras. Ela mesma não coloca. Ela entende como destruir o mundo significa destruir a si mesme, e vice-versa. Como construir algo significa abrir o seu próprio coração para as pessoas. Ela coloca barreiras entre as personagens para que elas possam derrubá-las por si mesmas. Não importa que terceiros consigam vê-las, só quem sofre aquela dor consegue desmistificá-la. Matsumoto compromete o certo e o errado para se encontrar respostas, pois suas histórias são feitas de adultos para crianças, de crianças para adultos, de crianças para crianças. Estamos aqui para descobrir o mundo e a nós mesmes.

Um dos episódios finais de Kyousougiga, em particular, nos dá um vazio imenso. Dá vontade de não ter que assistir a ele, mas, no fundo, sabemos que é necessário para continuar a jornada. Por colocar todas as emoções trabalhadas em cheque e finalizar com significado, o final é tão satisfatório que tudo parece valer a pena. Faz pensar “nós já chegamos até aqui… Vamos até o fim”.

lucina

Lucina-chan se inspira muito em personagens de desenhos animados e adora imaginar meninas 2D se casando (principalmente quando envolve bombardinos). Ama slice of life, mas também aprecia obras com tons mais Dark™. Fangirl da KyoAni.

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Sobre lucina

Lucina-chan se inspira muito em personagens de desenhos animados e adora imaginar meninas 2D se casando (principalmente quando envolve bombardinos). Ama slice of life, mas também aprecia obras com tons mais Dark™. Fangirl da KyoAni.

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