RECOMENDAÇÕES IN A BOX #2 – MANGÁS: COMÉDIAS YURI

Semana passada foi decidido (unilateralmente) que esse blog teria uma sessão de recomendações de mangás com autores ou temas parecidos. Decidi para aproveitar o fato que escrevi um texto para esse mesmo blog falando sobre como yuri não é pornografia, mas aparentemente alguém decidiu animar um dos títulos que mais tenta desmentir isso. Aproveitando essa temporada, resolvi começar a fazer recomendações de mangás yuri por gênero. Gênero além de yuri, que como já falei, é mais uma demografia do que qualquer coisa. Então essa semana começo com mangás yuri dentro do gênero comédia, como contraste com o alto nível de drama do título dessa temporada. Não que haja um problema com drama, mas sabe…

Motivos para a inclusão na recomendação foi basicamente: “mangás que acho engraçado”, e portanto deveria ser visto como opinião pessoal, assim como qualquer outra lista de recomendações. Porém, fico feliz se alguém encontrar algo que ache interessante. Da mesma forma, mangás que teoricamente são comédia, mas possuem um clima mais de “slice of life” não foram considerados. A lista também não possui o que é o mais popular do gênero, Yuru Yuri, tanto porque não acho que há necessidade de indicar quanto pelo fato que realmente acho os exemplos abaixo comédia melhores. Mas caso não conheça ainda, vale a pena pesquisar sobre. Mas então, começando….

STRAWBERRY SHAKE SWEET

O mais clássico dessa lista, visto que foi publicada em 2003, e serializada na Yuri Hime. Embora a Yuri Hime em si começou a ser publicada em 2005, então a história provavelmente começou em outra revista, o que faz dela de certa forma um clássico dentro do gênero. A autora Shizuru Hayashiya é provavelmente mais conhecida pela obra Hayate X Blade, que chegou a ser publicada nos EUA antes de a editora perder os direitos por causa da troca de revista pela história no Japão. Hayate X Blade também é considerado yuri, apesar do foco de ação, e é uma das histórias mais longas do gênero, com mais de 20 volumes no Japão e ainda sendo publicada.

Strawberry Shake Sweet é uma história bem típica do gênero, contendo um foco maior tanto na comédia quanto no romance. O mangá segue a vida da idol Tachibana Julia, que recebe a missão de guiar o novo talento de sua agência, uma garota chamada Asakawa Ran, por quem acaba se apaixonando. Julia é uma idiota, assim como Ran, e o mangá todo trata de uma grande comédia romântica entre as duas.

Quem já leu Hayate x Blade pode esperar o mesmo estilo de comédia que a autora usa. A história não apela para muito drama, embora haja um pouco, e as situações são absurdas. Vale lembrar que Shizuru Hayashiya disse em uma entrevista que para ela yuri é só natural. Quando ela vê duas garotas, ela pensa em fazer par delas, ao invés de adicionar um homem. Sendo assim, o mangá segue a mesma ideia, onde praticamente toda personagem feminina parece só ter interesse em mulheres. Exceto pela agente de Julia, sendo a única hétero (apesar de suas colegas sonharem em mudar isso) da história, e bancando a “tsukkomi” para as diversas situações entre as outras personagens, em particular para evitar escândalos que podem acontecer se for descoberto que duas idol estão em uma relação romântica.

Porém, apesar de tudo, a relação das duas é sempre levada a sério (apesar de ambas serem chamadas de idiotas) e respeitada. Vale mencionar algumas particularidades curiosas, como uma banda de rock que consegue sentir telepaticamente quando duas mulheres estão apaixonadas uma pela outra.

 

YURI MEKURU HIBI/OSHIGOTO

De certa forma colocar esse parece mais uma obrigação do que qualquer coisa. Provavelmente é o que muita gente lembra quando pensa em comédia yuri. O estilo de Yuri Mekuru é extremamente absurdo: uma comédia nonsense do começo ao fim. Portanto, é um estilo de humor que não vai funcionar para todo mundo. O mangá é escrito por Mizuki Reona e é dividido em duas diferentes séries, Yuri Mekuru Hibi e Yuri Mekuru Oshigoto.

Yuri Mekuru Hibi segue o dia a dia escolar das duas protagonistas, Sayuri e sua namorada e senpai, Yoriko, filha de uma família rica. O casal, talvez típico do gênero, já está formado desde o primeiro capítulo da história, e o foco nunca é sobre dramas ou desenvolvimentos românticos, mas o fato que Yoriko carece de qualquer traço de bom senso. Algumas piadas, principalmente no começo, são feitas sobre clichês de yuri típicos, mas a série vai ficando mais geral e absurda a cada capítulo, ao ponto que a autora claramente ficou sem ideias e é aí que Yuri Mekuru Oshigoto começa.

 

A segunda série possui a mesma ideia central da primeira. O foco é no relacionamento entre a garota séria Sayuri e a lady sem senso comum Yoriko. Mas dessa vez o mangá abandona o ambiente escolar e a princípio começa a focar em diferentes situações, como ir jogar boliche ou irem esquiar. Após alguns capítulos, a história começa a alternar os capítulos em realidades diferentes onde Sayuri e Yoriko realizam os mais diversos trabalhos, desde Yoriko como NEET até detetive. Os novos ambientes proporcionam oportunidades para piadas ainda mais diversas e absurdas.

Sendo uma coleção de piadas absurdas, uma por cada página, é comum que muitas delas acabam falhando em sua intenção, mas muitas também são hilárias. Um alerta que o mangá também possui umas situações um tanto grosseiras, como piadas de banheiro, que podem incomodar pessoas sensíveis com esse tipo de humor. E, apesar de seus raros momentos fofo, ao contrário de talvez boa parte das séries yuri, esse não é o foco desse mangá.

 

Swap Swap

Que Manga Time Kirara é conhecida por colocar subtexto yuri em suas obras não é novidade. Porém, uma crítica que frequentemente recebe é o fato de raramente trabalhar o tema abertamente, salvo algumas exceções como Kanamemo. Embora é entendível que subtexto é mais fácil de vender para um maior público e criar temas diferentes, é interessante perceber que a revista não impede que obras do gênero sejam criadas. O mais conhecido é provavelmente Sakura Trick, graças à adaptação animada que recebeu. Mas há na revista outras séries que merecem ser mencionadas, em particular uma em publicação atualmente chamada Swap Swap (vou me abster de colocar o símbolo que faz parte do título oficialmente a todo momento).

O mangá é criado pela autora Tomekichi, mais conhecida por incontáveis mangás yaoi, que eu realmente não aconselho a pesquisar sobre, a não ser que goste de relações pesadas sobre dominação e abuso que muitas vezes são frequentes no gênero. Swap Swap, porém, foge desse estilo, sendo provavelmente a história mais leve da autora. A história, publicada na Manga Time Kirara Carat, segue Nikaido Natsuko, uma gyaru com dificuldades em tirar boas notas e Ichinose Haruko, garota mais inteligente da turma, mas que possui um complexo quanto ao próprio corpo, além de não ter muitas amigas. Um dia ambas acabam colidindo em uma cena típica de mangá shoujo e se beijando por acidente. É então que as duas percebem que trocaram de corpos, algo que, Ichinose admite com suas próprias palavras, é uma história comum em mangás. Todo o problema é resolvido já no fim do primeiro capítulo no qual elas descobrem que podem voltar ao normal se beijando novamente.

A história não é nada original, mas enquanto a maioria vai usar esse tema para fazer drama ou ação, Swap Swap usa em um típico formato Kirara: fazer coisas no dia a dia. Seja poder comer mais, comer coisas que o corpo não gosta, ou poder experimentar roupas observando o corpo do lado de fora. O humor vem tanto das diversas situações que as personagens se envolvem quanto ao fato que Nikaido cada vez mais esquece do problema de ter que beijar Ichinose e faz isso de forma cada vez mais natural.

Sendo uma mecânica feita por conveniência, é fácil ainda criticar que o mangá está evitando reconhecer o relacionamento das duas por tratar como uma piada. Entretanto, além de isso fazer mais sentido que Sakura Trick, por exemplo, onde não há motivos para os beijos, mas ainda agem como se não soubessem o que é um relacionamento, Swap Swap tem uma certa evolução nos personagens. Em capítulos posteriores uma nova personagem é introduzida que é apaixonada por Ichinose, e, embora sem querer admitir os motivos, Nikaido fica com ciúmes e tenta sempre afastar as duas, com a pretensão de estar protegendo Ichinose. Ichinose também tem um interesse óbvio por garotas (ou os peitos delas). Depois ainda ocorre a chegada de mais duas personagens com o mesmo poder, mas uma relação romântica mais óbvia, em que descobriram que podiam trocar de corpo após se beijar de propósito. Sendo um mangá Kirara, embora, qualquer desenvolvimento grande provavelmente só poderá acontecer no último capítulo.

Swap Swap é fofo e muitas das piadas funcionam. Além das personagens serem carismáticas e terem boa química juntas. Um ponto que pode incomodar é o fato de Ichinose ter uma obsessão com peitos, o que rende algumas piadas típicas de anime. Mas, apesar de trabalhos antigos da autora, não há nada realmente ofensivo na história, e até o fanservice é muito menos constante que a maioria das outras histórias da revista.

AKARUI KIOKU SOUSHITSU (CHEERFUL AMNESIA)

Para falar a verdade, esse mangá foi o motivo principal de ter escolhido esse tema para as recomendações. Queria recomendar algo pela Tamamushi, mas a outra única série dela é um mangá que realmente não vale a pena considerar. Além dos dois, ela só possui algumas histórias pequenas publicadas em forma de tiras no pixiv ou twitter. Oku Tamamusi é uma autora de yuri que ficou popular recentemente por criar tirinhas com diversas situações, usando o fato de que as personagens gostam de garotas para criar humor. Algumas podem ser encontradas traduzidas na internet, mas podem ser encontradas em japonês em seu twitter e pixiv.

Cheerful Amnesia é sua primeira série, publicada na revista Cune. Curioso notar que Cune é conhecida como uma revista de garotas fofas fazendo coisas fofas, assim como as Kirara. Mas enquanto Kirara tende a sempre colocar yuri como insinuações e subtexto, Cheerful Amnesia é explicitamente uma história sobre duas mulher adultas em um relacionamento lésbico, apesar de manter o mesmo estilo leve de comédia e o elemento slice of life.

A história começa com Arisa Suzuki acordando de um acidente que sofreu para descobrir que perdeu as memórias de três anos atrás. Ao seu lado se encontra uma mulher chamada Mari que, nervosa, conta para Arisa que é sua namorada e as duas tem vivido seus últimos anos de vida juntas. O twist está no fato que Arisa se apaixona por Mari a primeira vista, e a revelação só a deixa mais excitada. A partir de então a história segue a vida das duas morando juntas, enquanto Arisa tenta de todo modo retomar uma relação de amante com a mulher que, apesar de recém conhecer, é praticamente sua esposa. É, curiosamente, uma história sobre amnésia sem drama. Arisa pouco se importa com suas memórias perdidas exceto quando quer lembrar de momentos com sua companheira, e Mari, apesar de desejar que sua vida volte como antes, está feliz de que sua namorada não a rejeitou.

Há diversos temas que são raros em histórias yuri, mesmo quando o foco está no relacionamento. Começando pelo fato que ambas são mulheres adultas, com vida profissional estabelecida e responsabilidades vivendo juntas. Praticamente casadas (tecnicamente, já que oficialmente casais de mesmo sexo não podem casar no Japão). Também não tem nenhum problema em declarar que ambas mantêm uma vida sexual juntas. E apesar do fato não ser ignorado, ser um casal homossexual não é apresentado como um grande dilema na história. De fato, ela provavelmente funcionaria com um casal heterossexual com algumas poucas modificações, se outra pessoa e não Tamamusi tivesse escrito.

É difícil explicar o humor sem dizer que é típico da autora. As piadas são criadas pelo fato que Arisa, que é claramente o que faz o mangá funcionar, se excita demais com a situação. Esse mesmo tipo de excitamento que faz parte de boa parte das tiras que Tamamusi fez antes. É fácil notar a excitação dela própria enquanto escreve e desenha, como ela claramente ama o gênero.

Apesar de ter colocado avisos sobre coisas que podem incomodar pessoas nas outras recomendações, não consigo pensar em nada que se aplique aqui. É uma recomendação que vale para todo mundo, a não ser talvez se tiver algum problema com casais homossexuais, o que se for o caso não deveria estar lendo esse texto de toda forma.

E com isso finalizo esta lista. É claro que esses não são os únicos títulos desse gênero que valem a pena, e sempre é difícil escolher o que recomendar. Quem sabe um dia volto para uma parte dois. E como ficou óbvio, pretendo fazer recomendações de histórias yuri em gêneros ou temas diferentes no futuro.

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