RECOMENDAÇÕES IN A BOX #1: SATOSHI MIZUKAMI

Estreando uma nova série no blog, yay. Agora iremos fazer recomendações de animes e mangás com temas semelhantes ou autores para quem sempre se guia por esses critérios ao procurar uma nova obra. Prometemos continuar essa série com uma certa frequência, então fiquem atentos aos próximos posts!

Estreando com um mangaká, imagino que muitos já estejam familiarizados com o Satoshi Mizukami pelo seu mangá mais famoso: Hoshi no Samidare, ou, como é mais conhecido por aqui, Lucifer and the Biscuit Hammer. Mas talvez não tanto com seus outros mangás, que são tão bons quanto. Mizukami com certeza não é um “one-hit wonder” e muitos dos seus trabalhos são excelentes.

Mizukami é um dos meus mangakás favoritos pelo fato de que ele sabe montar uma história e construir arcos de desenvolvimento de personagem. Ele é um ótimo storyteller que tem uma visão clara do que quer fazer com aquela narrativa e o que será dos seus personagens ao fim dela. Um dos recursos que ele mais usa, por exemplo, é o foreshadowing (um prenúncio sutil de algo futuro), mas de uma forma bem curiosa. Ele literalmente diz o que vai acontecer eventualmente na narrativa. Como seus mangás trabalham muito com conceitos metafísicos e forças que operam o espaço-tempo, há uma justificativa narrativa para isso. E o mais impressionante é como isso ainda nos pega de surpresa. Como um quebra-cabeça que nos é dado todas as peças com uma foto para comparar, o fato de que as peças encaixam tão perfeitamente, mesmo sendo óbvio, ainda é surpreendente.  Não é uma questão de retcon ou simplesmente de pensar um pouco antes, mas sim de ter uma visão completa do que aquela narrativa vai ser.  Além disso, ele possui técnica o suficiente para reproduzir excepcionalmente bem os seus conceitos grandiosos, sejam martelos de biscoitos gigantes, youkais, ou conceitos abstratos que operam o universo e a vida em si.  Nunca me decepciono com a forma como ele expressa suas ideias mais excêntricas e fantásticas nos suas obras, os quais darei exemplos nos mangás que citarei dele. E nada mais justo que começar por esse:

HOSHI NO SAMIDARE/LUCIFER AND THE BISCUIT HAMMER

Dificilmente você vai ter evitado, ao menos, ter ouvido falar deste mangá. Samidare é um mangá idolatrado por muitos com razão. O mangá conta a história de Yuuhi Amamiya, um jovem recluso com problemas familiares, que um dia é acordado por um lagarto falante propondo um pacto. Se ele aceitar, terá que proteger uma princesa de uma entidade chamada de “O Mago” e seus golems, que irão destruir o mundo com um martelo de biscoito gigantesco que fica pairando sobre a terra – visível apenas para aqueles envolvidos. Em troca, ele teria um desejo.

A tal princesa revela ser sua vizinha, uma garota chamada Samidare. Ao lado de outras pessoas que também fizeram pactos com outros animais, os chamados  guerreiros animais, Yuuhi tem o dever de salvar o mundo. Ou talvez não, pois Samidare tem outros planos.


O que chama mais atenção de cara do mangá, com certeza, é a premissa. Ela parece algo bobo e despretensioso, com alguém que talvez tenha ouvido The Pillows demais e resolveu prestar uma homenagem. Ou talvez não, se você consome muito mangá e entende que uma premissa não quer dizer muita coisa. E realmente não dá pra julgar. Hoshi no Samidare é um mangá que usa da premissa para trabalhar os traumas e a relações dos personagens. As batalhas mortais contra os golems são uma forma deles entenderem mais sobre si mesmo e suas motivações, e superarem dramas pessoais. Mas nem por isso elas deixam de ser excitantes; pelo contrário, elas são empolgantes e dramáticas para realçar mais ainda a importância do que está em jogo para os personagens. E o biscoito de martelo… bom, só lendo para descobrir.

A construção de cada personagem e seu arco é algo muito bem trabalhado em Samidare. E isso é algo que o Mizukami faz muito bem em todos os seus mangás. Seus personagens são ricos e apresentam várias faces da personalidade humana. Ninguém começa de uma forma num mangá dele e termina igual. Não há, de fato, vilões. Todos eles passam por uma jornada e crescem com ela.

Então se você tinha algum preconceito com o mangá por parecer despretensioso ou algo mais próximo de um “shounen” bobo, e nunca entendeu o hype por trás de Hoshi no Samidare, espero ter ajudado a esclarecer o que faz dele tão único para muitos, eu incluso, e que ele seja a porta de entrada para outros mangás que citarei nesse post. Inclusive, o mangá chegou a sair aqui no Brasil pela JBC. Embora eles tenham se provado incapazes de traduzir o dialeto de Osaka, ainda vale a pena ter a versão física e apoiar o mercado nacional. Até porque eu quero que outros mangás do Mizukami saiam aqui!

 

Sengoku Youko

Sengoku Youko talvez seja o mangá sobre youkais mais incrível que eu já li. Não só pela narrativa, as reviravoltas e seus personagens incríveis, mas como a arte do Mizukami faz com que essas criaturas mitológicas pareçam ter saído de uma pintura.

O mangá é sobre dois irmãos, Jinka, um meio-youkai, e sua irmã Tama, uma youkai raposa de mais de mil anos. Os dois partem em uma jornada para combater humanos e youkais que cometem maldades, com a ambição de criar um mundo melhor entre as duas raças. Outros companheiros surgem nessa jornada, como o samurai sem muito talento Shinsuke, e uma metade humana metade golem chamada Shakugan. Mas talvez as coisas não sejam tão simples como pareçam, e a história se apresente de uma forma diferente…

É difícil falar de Sengoku Youko sem entrar em alguns pontos chaves na construção da narrativa do mangá, mas não quero estragar a experiência de ninguém. Como já ressaltei em Samidare, os personagens do Mizukami são uma parte essencial da narrativa. Ninguém está lá de forma gratuita, ou é mal trabalhado. Todos eles têm um papel importante na construção do enredo e um arco que nos faz entender melhor cada um deles. De certa forma, é como se cada um dos personagens fosse o protagonista e ganhasse o destaque merecido.

Os personagens do Mizukami também não têm receio ou vergonha de expressarem suas emoções. Eles não choram apenas ao passarem por uma experiência muito traumática, como presenciar a morte de alguém querido. Eles choram porque estão tristes, felizes, ou apenas nostálgicos. Eles choram porque são relacionáveis. Isso é o que me fez ter tanto apego por eles e, ao mesmo tempo, entender que todos ali têm o direito de ser o foco principal. Em Sengoku Youko, isso é algo muito presente, e algo bem curioso, considerando que a maioria dos personagens são youkais ou meio-youkais. Mas esse é justamente o ponto. Seus personagens não são criaturas mitológicas, seres incompreensíveis, mas sim seres semelhantes a nós humanos, que choram e se frustram, mas que conseguem achar motivações para seguir em frente.

Como já mencionei, a arte do Mizukami consegue transpor as suas ideias mais excêntricas e fantásticas. Em Sengoku Youko, os youkais parecem ter saído de uma pintura clássica japonesa feito por um calígrafo, que vai te fazer interromper a leitura apenas para apreciar a beleza das páginas. Ao usar de traços grossos e expressivos, os seus youkais parecem criaturas vorazes e ameaçadoras, que realmente os destaca como seres únicos daquele mundo.

Não só isso, mas a escala das suas criaturas e como ele os constrói é algo fantástico. Não há limites do que se esperar num mangá do Mizukami, pois ele é um autor talentoso e esforçado em querer em expressar todas as suas ideias grandiosas. Ele é um “all-rounder” que não é limitado por sua imaginação nem por sua arte.

Sengoku Youko é um excelente mangá sobre relações humanas, que trabalha bem a construção dos personagens e surpreende com o rumo da sua narrativa – além de uma arte digna de um grande artista.

 

Spirit Circle

Spirit Circle é o mangá do Mizukami que mostra como ele sabe montar uma narrativa e brincar com seus conceitos. A história é sobre Fuuta e Kouko, um garoto e uma garota presos a um destino cruel, em que um ocasiona a morte do outro, num ciclo que envolve suas vidas passadas. Os dois possuem uma ferramenta mágica chamada de “Spirit Circle” e são capazes de reviver e relembrar suas vidas passadas. O mangá é dividido em arcos, cada um narrando a vida passada de ambos, e como um trouxe eventualmente o infortúnio do outro.

Talvez o mangá mais pesado dramaticamente do Mizukami, Spirit Circle é também o mais cômico. Revezando entre os arcos das vidas passadas dos protagonistas, ao focar na vida de Fuuta e Kouko e seus amigos no colégio, o mangá funciona de forma mais descontraída e leve. Não que haja um destoamento de tom que prejudique o que está sendo trabalhado, mas sim demonstra a capacidade do autor em conseguir balanceá-los – algo que você também pode perceber nos outros mangás citados. Seu ritmo é frenético, mas que consegue fluir naturalmente, sem deixar a impressão que ele está pulando algo necessário ou não trabalhando algo bem. Ele tem a quantidade de páginas e capítulos precisos para contar aquela história.

A relação da Kouko e do Fuuta é algo complexo pelo fato de que eles não são, de fato, culpados pelo o que um fiz ao outro numa vida passada. Mas, ainda sim, aquilo faz parte deles. Ao mesmo tempo que eles querem acabar com aquele ciclo cármico e seguirem com a suas vidas, eles se sentem como peças de uma máquina que precisa continuar funcionando; o ciclo de vida e morte que os opera é algo tão grandioso e arbitrário que parece impossível escapar dele. Mas talvez a resposta para fugir dele esteja nas suas vidas passadas. Entender os erros cometidos nelas e perceberem que ambos são vítimas – e que devem achar uma saída juntos.

O mais interessante de Spirit Circle é o fato de as vidas passadas não serem desconexas, já que fazem parte de um ciclo, então cada arco funciona de maneira a construir o seguinte. O que mangá tenta montar é uma jornada espiritual e de auto-conhecimento, em que ambos os protagonistas, assim como todos aqueles ao seu redor que fazem parte desse ciclo e os auxiliam, conseguem entender melhor sobre quem eles são e quem podem se tornar. Só assim para conseguirem se libertar deste destino cruel.

Já devo estar sendo muito repetitivo, mas sua arte ainda me impressiona muito na forma como ela traduz os conceitos que o autor trabalha no mangá. Só queria ressaltar isso mais uma vez, pois, embora não tenha seres monstruosos e colossais como em Hoshi no Samidare e Sengoku Youko, as páginas ilustrando os conceitos metafísicos em Spirit Circle são também fantásticas.

Spirit Circle é um ótimo mangá sobre, novamente, a construção de personagens, mas numa jornada de auto-conhecimento quase literal. Não só como uma forma de se conhecer melhor, mas também de entender as circunstâncias dos outros e o que levou eles a serem o que são. Os protagonistas precisam se perdoar, mas antes disso é necessário que eles juntem todas as peças do quebra-cabeça de suas vidas passadas e achem uma resposta que vá além da vingança. É um mangá relativamente curto, mas que consegue aproveitar ao máximo os capítulos para trabalhar esse conceito.

Bom, espero ter convencido alguém a se interessar por um dos mangakás favoritos, seja pelo seus enredos, personagens ou apenas por sua arte – ou todos eles. Vale constar que recentemente ele começou um novo mangá, chamado Nihonmatsu Kyoudai to Mokuzou Keikoku no Bouken, que também parece muito interessante. Se alguém quiser me recomendar também outros mangás traduzidos dele, pois ainda não li tudo, fiquem à vontade. Espero que esse Mizukamiverse se expanda cada vez mais e traga outras obras-primas. Até o próximo post de recomendações!

Overkilledred

Escarlate como o inferno, Overkilledred é um dos admins do blog e adora utilizar terminologias em inglês por se achar cool. Defensor da indústria de animação japonesa atual e de todos os mercados de nicho, ele luta contra a desinformação passada pelas mídias especializadas em cultura pop e tenta salvar o público da alienação.

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