O QUE O FILME DE DEATH NOTE NOS ENSINA (MAIS UMA VEZ) SOBRE ADAPTAÇÕES

O QUE O FILME DE DEATH NOTE NOS ENSINA (MAIS UMA VEZ) SOBRE ADAPTAÇÕES

Hollywood não tem mais ideias. Esse parece ser o consenso, visto a quantidade de remakes e revivals de séries/filmes antigos.  É por isso que novas fontes de adaptações são necessárias, áreas com títulos consagrados e ainda inexploradas pela grande mídia. Sim, animes e mangás são as próximas vítimas. Vale constar que eles sempre estiveram na mira de grande estúdios de cinema há anos, com adaptações como Akira ou de Cowbop Bebop sempre entrando em negociação, mas dificilmente temos algum avanço. Quando as coisas saem do papel, temos adaptações como Dragon Ball Evolution.

Por muitos anos, não houve precedentes de que um anime teria mais uma adaptação no mercado ocidental. Mas eis que surge Ghost in the Shell, um filme que prometia ser, ao menos visualmente, muito fiel ao original. Isso pareceu chamar atenção de alguns fãs, já que muitos nem chegam a ser particularmente apegado à mídia de animes,  e só são atraídos pela estética cyberpunk, ou o enquadram como um anime atípico, então a promessa de um filme com esse visual já era interessante pare muitos. O filme, claro, foi patético na forma como tenta lidar com as questões filosóficas construídas nos filmes e nas séries de TV da franquia, com justificativas pela escolha do elenco sendo bem ridículas. Mas será que dava, realmente, para esperar algo diferente isso? Será que Hollywood, entenda-se produtores e estúdios ocidentais, realmente daria liberdade para um filme caro, e pago por eles mesmo, falar com um nicho, com fãs ou pessoas que procuram alguma substância num filme do gênero? Eles trabalham com investimentos grandes com altos riscos, mas também com um retorno extremamente favorável. Seus filmes precisam falar com os quatro quadrantes (homem jovem, mulher jovem, homem adulto, mulher adulta), e não com públicos distintos.

O tão esperado filme Whitewashing in the Shell

Não que eu queria argumentar que um filme precise agradar os fãs, pelo contrário, se levarmos em conta filmes como Batman v Superman. A questão é que esses filmes se preocupam tanto em se comunicar com qualquer um que eles não se comunicam com ninguém. Há tantas fórmulas jogadas no meio para agradar um público imaginário, que nunca pararam pra pensar que talvez eles só tenham os alienado com esse conteúdo, que já se conformaram em esperar aquilo em qualquer filme. Os filmes já não são mais uma experiência inovativa, mas sim uma variação mínima de cenário que sempre preserva os elementos mais comuns de uma narrativa hollywoodiana: romance, ação, drama e comédia.

Death Note, um filme há anos em produção que ganhou espaço na Netflix, é mais uma tentativa de adaptação dessa mídia e outro que usa mais dessa fórmula de adaptação ao cinema hollywoodiano do que a de um anime/mangá consagrado. Simplesmente não há nenhum dos elementos que fizeram a obra original fazer tanto sucesso nesse filme além da premissa básica. É um filme que não sabe trabalhar nada que faria o roteiro ser interessante, os personagens carismáticos e suas justificativas plausíveis. Ele não é um filme que falhou por ter grandes pretensões e não soube trabalhá-las em um filme de uma hora e quarenta minutos: é um filme que desistiu de tentar e aceitou o argumento de roteiro mais preguiçoso de todos.

Death Note, o caderno que ninguém entende ou saber usar no filme porque tem regras demais.

O Light é um idiota. Ele não é um garoto inteligente, como alguns personagens parecem argumentar no filme, nem tem nada de interessante no seu arco de construção. Ele é só um garoto qualquer que conseguiu o Death Note e decidiu usar para fazer justiça. Como o original, certo? Bom, talvez isso seja um pouco próximo do original, visto que o Light não é um personagem que passa por uma corrupção moral gradativa. Ambos são alienados pela violência ao seu redor, então o uso de um caderno que mata criminosos é uma forma que eles usam para escapar desse mundo e se empoderarem. Mas o Light do filme, volto a afirmar, é um completo idiota. Ele não tem grande pretensões, não é construído como alguém com complexo de superioridade ou demonstra ter qualquer intelecto como o Light original. E isso é importante na construção da obra original para que o Light crie a falsa sensação de ser uma figura messiânica, alguém que tem os meios e a inteligência de se colocar acima da justiça e ser a justiça. O Light que vemos na adaptação podia ser qualquer um, alguém que conseguiu o caderno e fez o que provavelmente muitos fariam, e não teria diferença algum no roteiro do filme. O fato de ser o Light no anime/mangá é o que torna o enredo tão interessante quando começa o arco de investigações e o L é apresentado.

Olá, eu sou uma apropriação cultural.

O Ryuk é algo tão descartável nesse roteiro que nem tem muito o que falar sobre ele, fora o fato dele tomar uma posição mais ativa de incentivar o Light a usar o Death Note para matar. Diferente do original, que se mantinha mais neutro e se interessava mais no desenvolvimento natural que aquilo poderia causar, o do filme quer influenciar os resultados. A sua influência nas atitudes do Light não é algo que muda o rumo de tudo no enredo, mas certamente faz dele um personagem menos interessante.

A Mia/Misa é, bom, a personagem mais ok disso tudo, embora o romance seja o elemento mais forçado e mal construído do filme.  Sério que Light usa o Death Note como uma forma de atrair uma menina que trocava olhares com ele e disso surge uma relação platônica? Em um roteiro em que as coisas simplesmente acontecem porque sim, não chega nem a ser a pior delas. A personagem original era apenas uma ferramenta do enredo para que o Light tivesse uma aliada que o seguisse cegamente, e que ele conseguisse manipular para seus fins. No filme, ela age mais como alguém que busca ir além do que o Light é capaz e usar o Death Note sem nenhum apego moral. Ela, ao lado do Ryuk, estão ali para corromper o Light e reafirmar que ele está no caminho certo, mas também quer levar aquilo tudo a um rumo mais sombrio. Mas isso, claro, só é usado como uma justificativa idiota para que ela faça escolhas estúpidas e crie uma situação em que o Light praticamente entregue quem ele é para o L.

Vou argumentar que você precisa matar seu pai enquanto te lembro da sua mãe morta.

Falando no L, ele é um outro idiota. O maior detetive de todos que não faz nada como detetive. Não existem motivos para ele estar no enredo, simplesmente porque o Light ali não é uma ameaça para ele, que supostamente seria a grande mente de todas. Ele não utiliza o Death Note como uma forma de manipular as pessoas ao redor e ganhar informações (tirando o final), nem há um arco em que ele precisa estar um passo à frente dele para enganá-lo ou ter alguma vantagem. Até a forma como ele descobre que o Light é o Kira não justifica sua existência. O roteiro colabora de forma conveniente para que o Light fosse o único suspeito, e só um idiota não teria notado. Claro, isso é um dos argumentos do filme. Ninguém realmente queria que prendessem o Kira – com o L, ao lado do pai de Light, sendo os únicos focados nesse objetivo.

Cena clássica em que o L afirma que o Light é o Kira e ele confirma porque é um idiota.

Ao final, a cena da perseguição do L ao Light tem realmente um peso simbólico incrível, porque aquilo representa todas as pretensões que Hollywood tinha com esse filme. Todo o jogo de gato e rato intelectual que o original nos proporcionou, aqui é entregue como uma perseguição de forma literal. Esse filme de fato não é um thriller policial, como o original, ou falha muito em passar isso. O L, que se torna incapaz de tomar qualquer decisão lógica ao perder sua figura paterna e prova que é o pior detetive de todos, não tenta mais provar que o Light é o Kira e apenas busca vingança. É realmente curioso pensar que ele sabia do M.O do Kira (saber do rosto e do nome), mas não parece ter passado pela sua cabeça que ele chegaria à pessoa mais próxima dele. Não que realmente tivesse acontecido uma construção do L como o grande detetive da obra original, mas isso deixou o personagem mais patético ainda. Como você vai acreditar que alguém assim resolveu grandes casos e ganhou tanto renome? Talvez como uma forma de equiparar o intelecto dos personagens, o L desse filme é apenas um reflexo do Light que nos é apresentado.

O deus do novo mundo.

Não vou me estender muito em comentar sobre todos os problemas desse filme, porque acho que já deixei claro o quão patético é o roteiro dele. Hollywood provou mais uma vez sua incapacidade de fazer uma boa adaptação, que provavelmente não vai nem servir de exemplo. Porque simplesmente fazer de outra forma não é algo que os interessa. Essas adaptações são feitas com os métodos errados e com a expectativa de um público abrangente demais para passarem algo, e não serem apenas cascas vazias que usam superficialmente dos conceitos originais. Talvez um dia isso mude, e métodos alternativos surjam, mas, por hora, recomendo a todos nunca criarem expectativas. Mas é bom saber que o Death Eraser achou um lugar no filme.

 

 

Defensor da indústria de animação japonesa atual e de todos os mercados de nicho, Overkilledred luta contra a desinformação passada pelas mídias especializadas em cultura pop e tenta salvar o público da alienação.

Deixe um comentário

Seja o Primeiro a Comentar!

Notify of
avatar
wpDiscuz
%d blogueiros gostam disto: