UMA PERFEITA NOTA 7

UMA PERFEITA NOTA 7

Sou fã de RPGs japoneses. Desde a infância, fui conquistado pelos títulos da Squaresoft, que se fundiu com a rival e hoje atende pelo nome de Square Enix. Sempre nutri um carinho especial por Chrono Trigger, Chrono Cross e a série Final Fantasy. Com o passar dos anos, entretanto, fui sendo apresentado a um mundo de outras franquias que traziam propostas distintas entre si como a atmosfera sombria e intimidadora de Shin Megami Tensei e as aventuras carismáticas e descontraídas de Dragon Quest. Conforme fui fazendo essas descobertas e a oferta de jogos disponíveis para mim foi crescendo, uma certa ansiedade passou a tomar conta de mim cada vez que decidia começar um jogo novo: “será que este é o melhor jogo que eu poderia estar jogando?”

A pergunta parece pertinente. Afinal, RPGs exigem certa dedicação e eu não tenho mais tanto tempo disponível quanto na adolescência. E se, após um início promissor que apresenta personagens carismáticos e um sistema de batalhas engajante, eu me deparar com uma história que perde completamente o rumo após 20 horas de jogo? Certamente me arrependerei amargamente da escolha, do dinheiro e do tempo gastos e amaldiçoarei o dia em que decidi comprar o título em questão, certo? Bem, talvez não.

Vivemos em uma cultura com uma certa obsessão pelo review. Queremos alguém que jogue, leia, assista e escute para que não tenhamos que perder nosso tempo e dinheiro testando algo em primeira mão. Contabilizando estrelas, pontos e médias do Metacritic, estamos sempre em busca de excelência, da melhor experiência possível. Do jogo, filme ou série que está no Top 10. Mesmo quando a crítica é boa – uma nota 8, digamos – a possibilidade da existência de uma falha grave pode assustar um pouco, dependendo da expectativa criada sobre um produto. Por um lado, isso nos salva de pagar uma inteira no cinema para assistir Esquadrão Suicida (se você assistiu e gostou, lamento informar que seu gosto está equivocado). Por outro… bem, vou contar minha história com Wild Arms.

Para quem não conhece, Wild Arms é uma franquia de RPGs da desenvolvedora Media Vision que teve sua estreia em 1996 no Playstation. A proposta é interessante: uma mistura de fantasia steampunk com elementos de western. O primeiro jogo teve críticas favoráveis na época de seu lançamento, mas não é tão bem visto atualmente. Como diriam os jovens por aí, Wild Arms envelheceu mal. Os gráficos são arcaicos, os personagens e cidades se parecem demais entre si, os modelos 3D tiram qualquer seriedade possível até dos combates mais tensos no contexto da história, que são executados através de um sistema baseado em turnos que não traz nada de inovador. A própria história, inclusive, não ganharia nenhum prêmio de originalidade. Do ponto de vista técnico, não está no mesmo nível de Final Fantasy VII, Chrono Cross ou Breath of Fire III, para citar alguns dos clássicos do Playstation. Bem, acontece que, mesmo ciente desses defeitos, resolvi dar uma chance a Wild Arms em um momento em que a vontade de um RPG inédito para mim bateu mais forte.

O jogo não é longo para os padrões do gênero, durou cerca de 30 horas para mim. Ao final da aventura, quando um amigo me perguntou minha opinião final sobre o RPG, dei a seguinte resposta: “Uma perfeita nota 7”. Um 7 numa escala de 0 a 10 normalmente equivale a um “Bom”. Nem medíocre, nem ótimo, apenas bom. Os defeitos que citei acima estavam presentes e certamente me impediram de gostar mais do jogo. Acontece, porém, que não senti que nenhum tempo havia sido desperdiçado. Pelo contrário, lembro de Wild Arms com imenso carinho.

Gosto da trilha sonora. A curva de dificuldade é bem desenhada, apesar de puxar um pouco pro lado fácil. Meu elemento favorito certamente estava nas dungeons repletas de puzzles, o que é menos comum do que deveria ser em jogos do gênero. Apesar de todos os defeitos de Wild Arms, finalizei o jogo com uma grande apreciação por todas as suas qualidades.

Isso me fez pensar em uma época antes do review. Antes mesmo das revistas de jogos que eu comprava todo mês por serem a forma mais eficiente de saber as novidades do meu hobby favorito. A época de escolher um jogo na locadora pela capa, guiado apenas pelos screenshots no verso. O acesso maior à crítica que a internet nos proporcionou, entretanto, nos fez perceber que muito do que gostávamos era, na verdade, ruim. Éramos apenas ingênuos demais para perceber. Bom, pelo menos isso é o que estão nos dizendo.

Entretanto, eis o problema principal dos críticos: às vezes eles não sabem do que você gosta. Aliás, parando pra pensar, você mesmo tem certeza do que você gosta? Indo ainda mais longe, aquela coisa que você tem toda a certeza de gostar é a que mais vai te entreter no momento presente?

Gosto muito de filmes de terror, geralmente ignorados ou destroçados pela crítica. Muitos amigos meus – inclusive autores deste mesmo blog – gostam de mangás e animes que não caem no gosto do grande público, mas cabem perfeitamente no nicho do qual eles fazem parte. No fim das contas, a verdade maior é que é impossível saber se você irá gostar de algo até tentar. Proponho que continuemos a ouvir os críticos para não jogar dinheiro fora em caso de algo ruim a ponto de insultar a inteligência do consumidor ser lançado. Entretanto, proponho também que não se ignore o chamado das notas 7, das 6 e até mesmo das 5. Se quiser ser aventureiro mesmo, desça até a nota 4, se o preço for baixo e o tema te agradar. A experiência pode não ser perfeita, mas a busca pelo perfeito pode ser eterna e resultar em uma série interminável de frustrações.

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