PRETTY CURE MEMORY: A DESVALORIZAÇÃO DO INFANTIL

PRETTY CURE MEMORY: A DESVALORIZAÇÃO DO INFANTIL

Go! Princess PreCure

“Assista, fica bom depois do twist“. Acostumamos a escutar frases do tipo ao ouvirmos recomendações de certos anime. Normalmente o tal plot twist referido é um evento sombrio que revela a real natureza dramática da série. Se existem reviravoltas não exatamente dark? Sim, existem. Lembro Samurai Flamenco. Odiado justamente pela real natureza ser menos séria e realista do que aparentava.

HappinessCharge PreCure

Acredito que exista a ideia (entre fãs de anime, ao menos) de que uma história boa precisa ser complexa, muitas vezes abordando temas trágicos e “realistas”.

Dito isso, irei ao foco principal desse texto: Pretty Cure (Precure) é uma franquia de anime mahou shoujo transmitida aos domingos de manhã logo antes do episódios atuais dos famosos Super Sentai e Kamen Rider. Cada série dura um ano e ao acabar, uma nova se inicia – tal como os tokusatsu citados anteriormente.

DokiDoki! PreCure

A estrutura básica da história se mantêm em Precure através das séries. Meninas comuns ganhando poderes mágicos e transformando-se em poderosas heroínas para combater o mal.

Futari wa Precure, a primeira série, lançada em 2004, expõe bem o diferencial desta franquia para os demais mahou shoujo. As lutas são físicas, as Cure não se limitam à magias e, antes de seus costumeiros golpes finais mágicos, lutam com socos e chutes contra os inimigos da semana.

Smile PreCure

Precure é um equivalente feminino aos tokusatsu produzidos também pela Toei, mas focado no público feminino infantil. O senso de justiça apresentado ali é diferente do apresentado nos programas feitos para meninos. O mal é combatido com o amor. A inocência infantil das personagens é a razão para serem a personificação da justiça naquele mundo. A feminidade é usada como força contra os inimigos.

Retomando o tópico que puxei atrás, Precure não esconde seu conteúdo, não esconde o que é – as tais reviravoltas normalmente aparecem só nos últimos episódios, já que é uma franquia episódica.

Suite PreCure

Essa “pureza” das histórias faz delas piores?

Heartcatch Precure é um dos títulos mais famosos da série entre os fãs ocidentais. Os elogios se dão muito aos temas trágicos de alguns personagens; a série basicamente começa com a derrota de uma Cure, os vilões possuem backgrounds dramáticos e os monstro da semana nascem dos medos e incertezas dos personagens daquele mundo.

Criticarei nada disso, são alguns dos pontos que fazem de HC um dos meus preferidos. Mas a ideia principal é justamente de combater nossos medos e fraquezas com os sentimentos inocentes das heroínas. O infantil é a resposta.

Heartcatch PreCure

Precure é infantil. Por mais que existam lutas das mais bem animadas da indústria de anime, por mais que os vilões sejam encarnações do mal, por mais que existam arcos inteiros de redenção e superação. Nada disso nega a natureza infantil da série.

Não tenho vergonha de admitir meu gosto pela série pelo o que ela é. O infantil e o feminino são seus pontos fortes, a noção própria de justiça nascida da inocência das garotas faz Precure único.

Fresh PreCure

A associação do “bem escrito” ao “adulto” é duvidosa. Complexidade, do jeito que muitos a entendem, não é necessária para se contar uma boa história. Muitas vezes procuramos motivos ocultos para justificar nossos gostos. “Há mais a ser visto do que parece”, dizem alguns sobre seus slice of life preferidos. Mas não, uma história pode tratar do cotidiano, de garotas mágicas, de robôs, etc e ainda assim ser divertida. Ainda assim entretém, ainda assim pode passar uma mensagem.

Sua complexidade pode estar presente nas interações dos personagens entre si, nas relações vividas e na profundidade na qual podemos mergulhar ao entender como várias simplicidades formam um mundo interessante e vivo.

Minha experiência pessoal com Precure se deu na busca por algo mais leve. Havia cansado um pouco de realismo e dramas. Maratonei de Futari wa até Go Princess, o atual. Cada série construiu bem seu mundo, seus personagens e seus temas. Apesar de algumas falhas, consegui gostar de todas. Futari wa com o dinamismo da dupla principal, Splash Star com um dos mundos mais vivos, Yes com seu estilo sentai, Fresh com meu arco preferido de redenção, Heartcatch com seu cartunismo, Suite com sua temática musical forte, Smile com seu bom balanceamento entre todo o cast principal, DokiDoki com sua não linearidade e Happiness Charge com seu foco no amor.

O “complexo” é justamente bom pela existência do “simples”. Para “desconstruirmos” um gênero ele primeiro precisa existir. Se o realismo é sua preferência, não há problema, só não se torna em sinônimo de excelência.

Assim como as Cure originais (Black e a White) ensinaram: os opostos não são necessariamente inimigos. A menina atlética e explosiva pode formar a melhor dupla de todas com a intelectual e calma. A existência da luz permite a existência do escuro. E, se posso terminar esse texto assim, posso dizer que sim. Uma obra encarada como simples pode passar algo, nem que seja relembrar-me das minhas noções esquecidas de criança.

Futari wa PreCure & Splash Star

 

Dimentioluc é um apreciador da cultura japonesa. Eclético, é fã tanto de robôs gigantes quanto de meninas tomando chá. Só abre um espaço especial no seu coração para uma certa empresa de jogos de inicial N. Opiniões (não) imparciais.

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2 Comentários em "PRETTY CURE MEMORY: A DESVALORIZAÇÃO DO INFANTIL"

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Edungeon
Visitante

Muito bom.

As pessoas esquecem que escrever algo bom sem tirar a criança para idiota mas ao mesmo tempo simples e infantil pode ser bem mais complicado do que qualquer historinha dark and edgy explorando os cantos escuros da cidade. E por que tu acha que essa serie em especial consegue se diferenciar das outras mahou shojo? A qualidade da escrita mesmo? Eu tô de olho no HeartCatch pra ver, que é a que tu recomendou meio como ‘experiência essencial’ de Precure hehe.

Até mais,
Cya

dimentioluc
Visitante

Eu só vi agora o post. aushaasu
Precure se destaca mesmo por conseguir ser um mahou shoujo que, além da típica sutileza feminina~infantil do gênero, ainda conseguia ter lutas e ação.
É uma mistura interessante e que ressalta uma dualidade muito legal. Acho que foi o atrativo inicial da série mesmo.
Até hoje unir esses elementos é importante. O tema de Go Princess Precure, a série que logo vai acabar, é justamente esse: “força, gentileza e beleza”.

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