PREVIEW IN A BOX: TEMPORADA DE VERÃO 2015

Tempverao

Animes são uma mídia sem criatividade: um cavalo morto sendo espancado por animadores e produtores que não têm o mínimo interesse em fazer algo além do escopo comercial. Tudo hoje em dia são ecchis shounens repetitivos, que utilizam da mesma fórmula do sucesso, além dos animes com garotinhas fofas com um pretexto x para não fazerem nada a não ser serem fofas – o famigerado moe e sua errônea definição.

Imagem simbólica da situação atual da indústria.
Imagem simbólica da situação atual da indústria.

Ok, minha ironia está ficando tão repetitiva quanto os comentários de que toda temporada é a mesma coisa porque nunca se dão o trabalho de verificar se realmente é o caso, já que a pragmática dita que é melhor deixar a massa selecionar e ditar o que é bom – o que talvez não seja a melhor decisão numa mídia tão nicho. Com esse sendo o único marketing possível por esse lado do oceano, certos títulos nunca vão ganhar o destaque merecido. Por essa razão, resolvemos fazer um preview dos animes dessa temporada e focar no que se destacou.

Eu e o Raizor, outro contribuidor do blog,  selecionamos três animes da temporada e demos nossas opiniões com base nos primeiros episódios.  Então, enquanto muitos se preocupam com o novo anime de Dragon Ball Z, o que achamos do que realmente importa?

Overkilledred: 

O salvador da indústria.
         O salvador da indústria.

Ushio to Tora

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Estúdio: MAPPA, Studio VOLN
Direção: Nishimura Satoshi
Roteiro: Fujita KazuhiroInoue Toshiki
Número de episódios: 26 (39)
Ushio é um garoto encrenqueiro que vive com seu pai, um monge que tenta treiná-lo para combater youkais. Entretanto, Ushio nunca deu ouvidos ao seu pai, e acaba libertando uma criatura centenária selada com uma lança mágica no seu porão. Agora, ao lado dele e da lança que lhe dá poderes, Ushio precisa combater outras criaturas que ameaçam o mundo.

 

Baseado no mangá homônimo do autor Kazuhito Fujita, publicado na Shounen Sunday entre os anos de 1990 à 1996, Ushio to Tora é um caso muito peculiar por ter uma adaptação tão tardia, mesmo com o que aparenta ser um revival de séries dos anos 90. Tivemos o retorno de Sailor Moon com a série Crystal, em comemoração aos 20 anos da franquia, enquanto o anime de Parasyte (Kiseijuu) foi devido ao vencimento dos direitos da série para uma possível adaptação hollywoodiana que nunca se concretizou, tornando possível uma série de live-actions por estúdios japoneses. Mas Ushio to Tora? Não parece mais que um capricho. E francamente, fico contente que ainda exista adaptações sem qualquer motivo aparente, simplesmente porque alguém da produção do estúdio falou: “eh, por que não? era um bom mangápermitindo o retorno de obras que nunca tiveram a chance de expandirem seu público à outras mídias.

Ushio to Tora conta a história de um garoto, Ushio, que certo dia descobre que a lenda que seu pai sempre contava sobre um yokai ter sido derrotado e preso no templo onde eles moram era de fato verídica ao dar de cara com uma criatura imensa com forma semelhante a de um tigre. Acidentalmente, Ushio deixa escapar a aura maligna da criatura, o que acaba por atrair outros yokais ao seu redor e sejam uma ameaças às pessoas ao seu redor. Sem escolha, ele retira a lança do peito da criatura, que mesmo prometendo ajudar tenta devorá-lo ao ser libertado, mas logo é derrotado por Ushio pelo poder fornecido pela lança, criada com o objetivo de derrotar yokais e dando o poder necessário para tal tarefa ao seu usuário. Ushio agora tem a missão de controlar a criatura, nomeada de Tora (tigre) pela sua aparência, e lidar com outros possíveis ataques de yokais.

Com o formato episódico de monstro da semana (embora sendo um shounen, provavelmente deva ter arcos futuramente), Ushio to Tora talvez seja desgastante para alguns, que esperam um plot que avance e desenvolva seus personagens junto. Tendo acompanhado as reações do público com a segunda temporada de Jojo’s Bizarre Adventure, Stardust Crusaders, percebo que esse formato é um problema para muitos. Mas não é exatamente um problema se for bem executado. Stardust demonstrava sua criatividade com novos Stands inimigos  e desenvolvia seus personagens nas batalhas, além de criar situações de humor inusitadas. Talvez a questão seja uma falta de comunicação do público com o gênero, pois os seus anseios não são justificados nesse tipo de obra, que pouco se preocupa em criar um plot complexo. É simples e funciona nessa simplicidade. A relação dos protagonistas que dão nome ao anime é divertida de acompanhar porque os dois estão sempre entrando em conflito entre si e com outros yokais – e é nessa relação que o anime consegue brilhar.

O estúdio MAPPA é o responsável pela animação, com uma equipe de veteranos bem típica das suas produções. O diretor Nishimura Satoshi, conhecido pela adaptação de Trigun Hajime no Ippo, consegue captar bem o estilo visual retrô dos anos 90 e traz uma versão atualizada que preserva suas características distintas.Talvez seja uma barreira para alguns que não estejam acostumados com o estilo, mas vale a pena tentar superar.

Eu sempre estou em busca de shounens para acompanhar, mesmo embora não seja muito fã do gênero atualmente, pois seja pelos seus tropes ou o formato de série longa, a qualidade nunca se mantem constante, com poucas exceções como o já citado Jojo’s Bizarre Adventure e o eterno mangá em hiatus Hunter x Hunter. Mas ainda sim é um gênero que me cativa pelo seu formato mais voltado para a aventura e ação constante – algo que tenta ser puro no seu método de entretenimento. E Ushio to Tora me convenceu que possui esses pré-requisitos. Com um protagonista bem típico dos anos 90, o garoto esquentadinho que não se curva a ninguém – criando reações inusitadas, como quando ele encontra o Tora e bate de frente sem hesitar- e um humor que contrabalanceia o seu lado mais sério, criando situações divertidos mesmo com o evidente conflito entre os personagens titulares e a situação que encontram-se, Ushio to Tora é algo que me faz querer acompanhar toda semana como um cartoon que passa nos sábados de manhã.

Prison School

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Estúdio: J.C.Staff
Direção: Mizushima Tsutomu
Roteiro: Yokote Michiko
Número de episódios: 12
A escola particular exclusiva para meninas Hachimitsu é famosa por seu prestígio e disciplina com os seus alunos, mas isso está para mudar quando garotos começam a ser permitidos. Quando um grupo de estudantes tenta se aproveitar da situação, o conselho estudantil decide puni-los de formas inimagináveis.

 

Primeiramente queria dizer que não sou fã do mangá. Já li alguns capítulos bem antes do anime estrear e não consegui pegar o apelo. Sim, o traço é excelente e dou bastante crédito ao autor Akira Hiramoto por ter criado Ore to Akuma no Blues, mangá sobre a lenda do famoso canto de blues Robert Johnson ter feito um pacto com o demônio em troca de talento, que inclusive teve seu retorno confirmado recentemente, anos depois de seu cancelamento (e já sabemos o culpado por trás disso). Não sei exatamente o que levou o autor a tomar esse salto de uma narrativa mais séria e com uma ambientação atípica de mangás, para um mangá borderline com um humor suportando pelas suas situações absurdas, mas sabemos qual teve um melhor retorno financeiro. Dito isso, eu gostei do anime.

Prison School é sobre um grupo de garotos que conseguem se matricular em uma escola até recentemente privada para meninas. Tirando proveito da situação, o grupo elabora um plano para espiar as garotas enquanto tomam banho. E isso acaba se provando um erro fatal ao serem descobertos por um grupo de meninas do conselho estudantil; ou melhor, do conselho estudantil do subterrâneo. Sem remorso, elas o submetem à trabalhos escravos e os confinam em um tipo de prisão, onde deverão ficar por alguns meses cumprindo sua pena se quiserem voltar para suas vidas estudantis normais.

Em meio a um constante abuso físico dos membros do conselho estudantil, os garotos acabam criando um gosto particular pela coisa, afinal, são um grupo de meninas bonitas, e os meios de tortura muitas vezes são tão absurdamente apelativos que a dor é deixada de lado. Essa relação de dominância, no melhor estilo femdom (female dominance), é o que caracteriza muito do humor do anime. O grupo de protagonista se encontra num tipo de limbo e são constantemente levados tanto ao paraíso quanto ao inferno em situações que escalam num nível completamente absurdo do que se espera em um anime ecchi. E é por isso que me sinto fascinado por ele.

Afinal, quais as chances de algo assim ganhar um anime? Eu diria que nenhuma se me perguntassem antes, pelo menos como uma série de TV. E mesmo assim ganhou. No âmbito de mangás, não é incomum ter obras do gênero, inclusive mais absurdas e extremas ainda, e logicamente não possuem uma versão animada para TV. Um mangá com innuendos sexuais extremos e humor escatológico entendo existir. Um anime com innuendos sexuais extremos e humor escatológico não. Isso que me surpreende e me prende ao anime, de uma forma que o mangá falhou em conseguir. Não me sinto atraído particularmente pelas cenas ecchi de semi-nudez – ou a ausência delas, com uma censura absurda que berra “compre os BDs” – mas as situações envolta dessas cenas são cômicas o suficiente para eu entender a necessidade delas.

O estúdio J.C Staff não fez um trabalho que possa ser particularmente elogiado na animação de Prison School. A movimentação das expressões faciais dos personagens usa um método de animação que não flui bem e cria um senso de estranheza com o resto do anime. Talvez seja uma forma de manter o traço do mangá, que é excelente e precisaria de um alto nível de qualidade de animação para se manter constante – assim como o estúdio Shaft faz com suas adaptações de série de light novels Monogatari, utilizando muito de animação estática. Mas a surpresa do anime é seu diretor, Mizushima Tsutomu. Conhecido nos últimos anos pelo seu trabalho em Girls Und Panzer e recentemente Shirobako, Mizushima se tornou um ícone entre a comunidade pela qualidade de suas produções e o enorme sucesso que as suas obras anteriormente citadas conseguiram (e fazer um anime da P.A Works vender não é nada fácil). Algo que posso elogiar sobre a sua direção, embora muito questionado, é o estilo dinâmico das transições, similar aos usados em adaptações de 4koma, criando a sensação de que cada episódio são várias sketches, embora tenha um plot contínuo. Os leitores do mangá devem se sentir incomodados com isso, mas acho uma forma interessante de animar algo que se preocupa mais em criar situações absurdas pelo fator humor do que trabalhar o enredo e seus personagens.

Então se é ecchi que você procura, Prison School com certeza vai funcionar para você. Se é algo a mais que um ecchi, Prison School também deve funcionar. E se você não for um fã do gênero, talvez ainda funcione para você. O absurdo de tudo nele faz com que esses detalhes se tornem irrelevantes. Talvez ele seja a resposta à pergunta: “como seria um anime ecchi tendo um autor talentoso por trás?”.  Só espero que continue sendo a resposta.

Gangsta

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Estúdio: Manglobe
Direção: Murase Shukou
Roteiro: Inotsume Shinichi
Número de episódios: 12
Numa cidade comandada pela máfia, uma dupla de mercenários, também conhecidos como “Handymen”, aceitam trabalhos sujos que nenhum outro é capaz. Com grandes mistérios por trás dos seus passados, Nicholas e Worick precisam se preparar para um grande conflito que se aproxima.

 

Com um estilo “gritty” e irreverência, Gangsta é um anime que merece ganhar destaque nessa temporada.  No melhor estilo Black Lagoon e Jormungand, Gangsta consegue misturar ação e comédia com personagens que podem ser cômicos e ameaçadores quando a situação demanda. É o típico título que consegue ter fãs no ocidente pelo seu apelo hollywoodiano.

Ambientado na fictícia cidade Ergastulum, na Itália, onde criminosos são quem criam as regras, os protagonistas Worick e Nicholas são membros funcionais na comunidade local conhecidos como “handymen”, fazendo trabalhos sujos tanto para a polícia quanto para famílias de mafiosos. E é no dia a dia do lado sujo da cidade que o anime foca, construindo a sociedade por trás dos panos que os personagens principais se encontram. Embora a série foque muito no lado sujo e sombrio da cidade, como drogas, assassinatos e prostituição, esses elementos são jogados de forma mais casual, e até certo ponto cômicos, não tentando criar “shock value” com isso.

Do estúdio Manglobe,  que não é conhecido por muita qualidade em suas obras, a série não se destaca muito visualmente. O diretor Shukou Murase, famoso pelo renomado Ergo Proxy e Michiko to Hatchin, já é um veterano em obras com ambientações fora do Japão, mas não se destaca muito aqui. A animação não é das melhores nas cenas de ação, com pouca dinâmica e ritmo, o que incomoda por ser algo tão presente na série. Como a tendência em animes é de dedicarem um orçamento maior nos três primeiros episódios, não creio que isso mude nos episódios futuros. Um destaque da sua produção é a trilha sonora, feita pelo DJ Tsutchie, conhecido pelo seu trabalho em Cowbop Bebop e Samurai Champloo, com músicas de ritmo downtempo que criam um clima agradável e relaxante nos momentos de interação entre os personagens.

Tanto o Worick como o Nicholas são personagens divertidos na forma como conseguem demonstrar um lado mais cômico e perverso dependendo da situação, principalmente o Nicholas. O fato dele ser surdo também deixa ele mais interessante, visto que os personagens precisam usar da língua de sinais para se comunicar com ele, embora seja deixado de lado às vezes pela dinâmica do anime e utilizem da praticidade da leitura labial – ou às vezes nem isso, assim como a personagem Celty em Durarara!!, onde já nem liam o que ela escrevia no celular e entendiam. Até o problema de dicção de um surdo em falar foi bem reproduzido no anime, kudos para o seu dublador.

Mas um dos principais problemas que tenho com Gangsta é a sua necessidade de aprofundar o plot. A série funciona muito bem sendo apenas o cotidiano de dois hitmen fazem-tudo tentando se sustentar numa cidade que necessita empregar gente assim, além de acompanhar a cidade em si. Todos as referências e dicas do que estão por vir, como o passado dos protagonistas, parece uma tentativa forçada de aprofundar algo que não precisa disso pra funcionar bem. A cidade devia ser um personagem acima de tudo e os acontecimentos presentes é que precisam ser o foco na narrativa.

Outro problema é a personagem Alex, uma ex-prostituta salva pelos protagonistas e que eventualmente vira a secretaria deles. A sua função lá, entretanto, é de ser uma “orelha” para quem acompanha, pois ela pouco sabe sobre como funciona a cidade em que se encontra e muita exposição é feita usando dessa ignorância como pretexto. Embora ainda seja cedo para julgar, não vejo qual outra função ela teria ali e sua personalidade não parece ir além do que já foi apresentado.

Gangsta tem suas falhas, mas consegue ter um estilo que compensa e esconde bem elas. Sua ambientação é refrescante e seus personagens são carismáticos para carregar bem a série até onde for. Meu único receio é que tente ir longe demais e perca o foco no que realmente faz a série brilhar.

Raizon:

O vô rabugento da indústria.
O vô rabugento da indústria.

Gakkou Gurashi (School Life)

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Estúdio: Lerche
Direção: Ando Masaomi
Roteiro: Morise Ryou;Fukami MakotoHigashide Yuichiro; Kodachi UkyouKaihou NorimitsuMiwa KiyomuneSakurai Hikaru
Número de episódios: 12
A história mostra o cotidiano de quatro garotas colegiais que residem em sua escola devido a uma tragedia que se espalhou pelo local, transformando a população inteira em mortos-vivos. Yuki, a protagonista, após presenciar toda essa tragédia, acaba traumatizada e o resultado disso é uma fadiga mental que faz com que ela veja o mundo de uma forma diferente. Com suas amigas não sabendo lidar com a situação, é fundado o “clube de vida escolar” para preservar Yuki.

Baseado em um mangá da Manga Time Kirara Forward, revista da linha Manga Time Kirara, conhecida por criar centenas de mangás sobre garotinhas realizando atividades mundanas, Gakkou Gurashi é um anime da temporada de verão (ou inverno para nós) animado pelo estúdio Lerche, conhecido por animar a adaptação de Assassination Classroom e Humanity Has Declined.

E eu não vou falar sobre ele.

Eu sei, não faz sentido. Por que fazer preview sobre um anime e não falar sobre ele? Eu tenho tanta preguiça assim para escrever? Bom, a verdade é, tenho, mas não é esse o caso. Gakkou Gurashi foi promovido intencionalmente escondendo-se muitos detalhes da obra original. Eu quero respeitar essa escolha que o estúdio fez na divulgação, até porque entendo seus motivos e vantagens. E também porque a experiência que alguém vá ter ao chegar na obra sem muitas informações provavelmente será diferente daquela que terá quando souber exatamente no que está entrando. A obra original já fez isso, na verdade. Então é uma questão importante para ela.

Porém, apesar de suas vantagens, essa é uma estratégia perigosa, pois ter o público-alvo em mente é importante quando divulgando algo. Mas Gakkou Gurashi a primeira vista não deixa claro que tipo de fãs está querendo conquistar. O perigo é afastar pessoas que gostariam do que ele está planejando e atrair pessoas que se incomodam com isso, principalmente no ocidente onde há um certo preconceito com obras focadas em garotas sendo bonitinhas.

Então a dica que posso dar é, vá assistir. Não pesquise nada sobre, simplesmente veja o primeiro episódio, é o suficiente. Se você odeia a cultura “moe”, assista. Se você gosta dela, assista também. Você pode vir me xingar se achar que perdeu preciosos 20 minutos de sua vida depois.

Para aqueles que já conhecem o mangá, posso dizer que o anime até agora foi uma boa animação. Há algumas mudanças, mas nada que atrapalhe muito a ideia original por trás dele. A animação também está muito boa e alguns efeitos usados para certas criam um clima diferente. E…

Certo, é difícil falar sobre algo sem falar sobre algo, então vou acabando aqui. Acho que meu objetivo com esse post foi de tentar despertar a curiosidade de vocês para darem uma chance, independente da sua impressão inicial. Espero ter conseguido isso ao menos.

Himouto! Umaru-chan

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Estúdio: Doga Kobo
Direção: Oota Masahiko
Roteiro: Aoshima TakashiSugihara Kenji
Número de episódios: 12
A comédia centra em Umaru, irmã mais nova de Taihei que se gaba de sua beleza, bem como destreza tanto na escola quanto nos esportes. No entanto, a “Himouto” tem um certo segredo.

Antes mesmo da temporada começar eu tenho visto essa imagem de uma garota anã vestida de hamster pela internet. Bom, eu nem havia percebido que era uma roupa de hamster a princípio. Mas por algum motivo sempre imaginava ser alguma mascote de alguma empresa otaku japonesa. E então eis a minha surpresa ao ver que era personagem de um mangá recebendo adaptação nessa temporada (eu provavelmente já tinha visto anúncios sobre a adaptação, mas com tantos títulos, é fácil esquecer).

Himouto! Umaru-chan é uma animação produzida pelo estúdio DogaKobo, conhecido por produzir séries como Yuru Yuri, Engaged to the Unidentified e Plastic Memories, e dirigida por Masahiko Oota, diretor das duas temporadas de Yuru Yuri, Sabagebu e Minami-ke.

Mas o que seria Himouto? Imagino que quase todos estejam acostumados com a palavra “imouto”, que significa irmã mais nova em japonês. Himouto é uma mistura das palavras “himono” e “imouto”. Himono (literalmente significa peixe-fresco) é um termo usado para designar pessoas que mantém uma aparência em público, mas são completamente relaxadas e preguiçosas em suas casas. E, sem adentrar mais em estudos sociais japoneses, é sobre isso que o anime trata. Taihei vive com sua irmã mais nova, Umaru. Umaru é praticamente perfeita em sua vida social, mas quando chega em casa, coloca seu pijama de hamster e fica o tempo todo fazendo nada, dando trabalho para seu irmão. Ou para ser mais específico, fica o tempo todo jogando videogames, assistindo animes e comendo junk food. Essa é basicamente a piada que parece sustentar o anime.

Em sua vida social, Umaru é basicamente a definição de uma Mary Sue. Ou seja, impossivelmente perfeita. Extremamente bonita, tira notas boas em todas as matérias, boa nos esportes, educada e gentil, ela é amada por todos na escola, e deseja manter as coisas assim. Seu irmão é o único que conhece sua verdadeira personalidade, e o único que sofre com suas demandas egoístas. Seja para conseguir a nova Jump ou o mais novo jogo de videogame lançado, Umaru tenta de todo o jeito manipular o irmão, muitas vezes utilizando-se de sua imagem em público para isso. Enquanto muitos podem ter problemas com a personalidade de Umaru, se um gênero pode fazer bom uso de personagens perfeitas, é comédia.

O humor parece funcionar basicamente com o contraste entre perfeita-Umaru e himono-Umaru e suas interações com o irmão. E isso é algo que pode perder a graça rápido. Na verdade, mesmo nos primeiros episódios, a maioria das piadas tem mais charme do que graça. É divertido e bonitinho ver Umaru dando chilique ou rolando na cama para conseguir o que quer, mas raramente engraçado. Porém, os personagens e atmosfera contribuem para não fazer o episódio massante, mas charmoso, e fácil de se divertir assistindo. Boa parte do charme está em focar em cenas “fofas” de anime, porém, então aqueles que não gostam desse tipo de coisa podem acabar não achando nada para mantê-los interessados aqui. DogaKobo já fez algo parecido em Engaged to the Unidentified, onde os personagens e fator “moe” podem ter sido mais importantes que o humor e a história do anime, apesar de o humor funcionar melhor do que em Himouto.

E também é fácil se identificar com Umaru. Praticamente todo mundo vive uma vida dupla, agindo de uma maneira em público e de outra maneira dentro de casa. Isso é particularmente verdade para pessoas que são fãs da cultura “otaku”, que pode muitas vezes não ser bem vista pela sociedade em geral, ou dependendo do que você acompanha, não é algo que se sente confortável em compartilhar com os outros. Assim muita gente esconde em público seus “hobbies”. Isso pode não ser tão frequente no Brasil quanto no Japão, onde ver anime sendo adulto em si é considerado algo estranho, mas muitas vezes mesmo quando todos sabem que você vê animes ou joga games, você acaba não especificando que gêneros e títulos gosta por não ser algo que combine com sua imagem pública e vai causar estranheza… Bom, experiência própria aqui, ao menos.

Eu não recomendaria Himouto! Umaru-chan para pessoas que se irritam com situações e personagens feitas para serem adoráveis e fofas. É definitivamente um dos pontos fortes e charme do anime, e o que te mantém preso quando a piada não funciona. Também é bem fácil se irritar com o uso disso se for algo que te incomode. Mas para pessoas que não têm problema com esse tipo de apelo, vale a pena conferir.

Charlotte

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Estúdio: P.A. Works
Direção: Asai Yoshiyuki
Roteiro: Maeda Jun
Número de episódios: 13
Num mundo alternativo, uma pequena percentagem de crianças são capazes de manifestar seus superpoderes ao atingir a puberdade. A história é ambientada na Academia Hoshinoumi e acompanha os membros do conselho estudantil, que ajudam os outros alunos com problemas decorrentes das suas habilidades. Yuu Otosaka utiliza seu poder sem ter conhecimento deles, vivendo seu cotidiano normalmente. No entanto, depois que ele conhece uma garota misteriosa chamada Nao Tomori, o destino do usuários especiais com poderes poderá ser exposto.

Há um certo preconceito quando estamos falando de narrativas com premissas que faltem em originalidade. É comum muita gente não dar a mínima atenção para algo após ler sua sinopse e perceber que já viu esses conceito sendo usado muitas vezes antes. Bom, eu não os culpo. É verdade que fica muito fácil copiar um conceito de sucesso e, sem se dar ao trabalho de criar algo novo em cima, vendê-lo. É aí que se encontra o maior problema na falta de originalidade. Não é o fato que o conceito já existe, mas o fato de que haverá pouco esforço em desenvolvê-lo, pois pretendem vender a ideia em si. Nesse sentido, o mais novo anime da P.A. Works (estúdio responsável por obras como Shirobako, Angel Beats! e Hanasaku Iroha) pode provocar ceticismo. Afinal, sua sinopse é basicamente: “adolescentes que descobrem que possuem superpoderes”. Quantas vezes já vimos isso em animes?

Acho que podemos dizer com certeza que não foi originalidade que chamou atenção de quem tenha tido interesse em Charlotte. Muito menos o diretor Yoshiyuki Asai, que está tendo na obra seu primeiro trabalho de direção. Qualquer atenção que o título chamou foi, sem dúvida, pelo responsável pelo roteiro, Jun Maeda. O nome dispensa apresentação para muitos, mas Maeda é responsável por diversos dramas famosos, como Air, Kanon e Clannad, embora nesses ele tenha trabalhado na visual novel original. Ele também foi o autor do anime original Angel Beats!, também animado pela P.A. Works. Como é possível notar, suas obras geralmente possuem uma forte carga emocional, que geralmente define seu sucesso. Então, desde o princípio, o mesmo é esperado de Charlotte.

Devo dizer que não sou fã de Angel Beats!. Sempre achei a execução fraca, humor forçado e havia muitos personagens que nunca foram trabalhados. Embora essa é uma opinião pessoal e claramente não compartilhada pela maioria, eu deixo claro que não sou exatamente um fã cego de Maeda, embora goste muito de Clannad, outra de suas obras. Então Charlotte para mim poderia ir para qualquer rumo. Maeda é acostumado a escreve visual novels, onde ele tem mais tempo para trabalhar a história e os personagens. Isso parece ter sido uma dificuldade em Angel Beats!, o que é esperado, sendo seu primeiro trabalho em animação original. Felizmente, ele parece ter aprendido como o ritmo de um anime funciona, pois até o momento, esses problemas não parecem existir em Charlotte.

Mas primeiramente, deixe-me falar sobre a história. Não é muito diferente do que se espera ao ler a sinopse. A história trata de adolescentes que descobrem possuir superpoderes. O primeiro episódio foca em Otosaka Yuu, um estudante que descobre poder possuir uma pessoa por cinco segundos. Porém, ele só pode possuir pessoas na sua linha de visão e seu corpo fica desmaiado enquanto ele está fora dele. Por todo o episódio descobrimos que Yuu é um trapaceiro que usa seus poderes para provocar brigas entre pessoas aleatórias na rua, tirar notas boas na escola, conseguir entrar para a melhor escola da cidade e até provocar um acidente para salvar a garota mais popular e fazer ela se apaixonar por ele. Basicamente, Yuu é um babaca. Mas não é exatamente uma pessoa má, como percebemos ao vê-lo interagir com a irmã mais nova, Otosaka Ayumi, mostrando que ele realmente se importa com ela. Talvez essa seja uma visão realista de como um adolescente agiria ao ganhar superpoderes. É algo novo para Jun Maeda, porém. Por mais que seus personagens parecessem um tanto arrogante, eles nunca chegaram a ser moralmente questionáveis quanto Yuu no primeiro episódio.

Logo somos apresentados a outros dois personagens: Tomori Nao, que possui o poder de ficar invisível para uma única pessoa e Takajou Joujirou, que possui o poder de se mover tão rápido que parece se teleportar, mas sem poder decidir onde ele vai parar, algo que o levou ao hospital diversas vezes. Como Yuu nota, todos eles possuem poderes imperfeitos. Essa é provavelmente a grande diferença no conceito. Como seus poderes possuem imperfeições, é preciso de mais estratégia ao usá-los, e isso leva a situações interessantes, onde Nao, que parece ser o cérebro do grupo, elabora planos para quando os personagens precisam usar suas habilidades. Isso nos leva a outro conceito já conhecido nesse tipo de premissa. Nao e Joujirou são alunos de uma escola que existe para ajudar adolescentes que descobrem possuir esses superpoderes. Não é exatamente para treiná-los a usar eles, afinal, já que os poderes aparentemente somem quando eles crescem, mas para escondê-los. Afinal, no segundo episódio descobrimos que há pessoas procurando esses jovens, fazendo testes neles até que enlouqueçam. Nesse momento Maeda faz uso de sua marca ao apresentar o drama do passado de Nao, que teve que ver o irmão ser um rato de laboratório para esses cientistas até ser transformado em um vegetal. Aparentemente, quando um irmão desenvolve essa habilidade, é provável que outro também o faça. Isso faz Yuu se preocupar com o futuro de Ayumi e finalmente o convence a continuar na escola.

É possível notar várias marcas de Maeda nos primeiros episódios. Um protagonista meio babaca, mas que realmente se importa com as pessoas importantes para ele, um amigo meio idiota que é usado para comédia a maior parte do tempo, uma heroína “cool” e séria com um passado dramático, e uma garota pura e inocente que se importa com todos ao redor dela. Porém, Maeda parece ter aprendido a trabalhar melhor com animes. Nos dois primeiros episódios somos apresentados a maioria dos protagonistas e conhecemos suas personalidades e motivações. Somente no terceiro episódio conhecemos a protagonista que faltava, tendo um episódio só para ela. Animes não são visual novel, é preciso cuidar para não colocar mais do que se pode trabalhar, e calcular o ritmo onde elementos vão aparecendo. Esse ritmo até o momento em Charlotte não deixa a desejar. Embora mais leve no momento, os três primeiros episódios já prometem a carga emocional que Maeda é conhecido por, e nos deixa imaginando que tipo de dramas esses personagens enfrentarão.

E no fim, não há nada especial. É uma história sobre jovens com superpoderes. Fora a promessa que o nome do roteirista nos dá, não há nada de muito diferente. Ainda assim, é curiosamente divertido de assistir. Não é original, mas é bem montado. Claramente há uma preocupação em desenvolver uma boa história, e não só vender um conceito. Charlotte mostra como originalidade não é tudo na indústria e ainda é possível trabalhar temas que teoricamente já estejam saturados quando se coloca uma identidade própria nele.

Overkilledred

Escarlate como o inferno, Overkilledred é um dos admins do blog e adora utilizar terminologias em inglês por se achar cool. Defensor da indústria de animação japonesa atual e de todos os mercados de nicho, ele luta contra a desinformação passada pelas mídias especializadas em cultura pop e tenta salvar o público da alienação.

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