DIRECTLY TO YOU, IWATA.

DIRECTLY TO YOU, IWATA.

Iwata Wario
A arte nos eleva à imortalidade. Esse é um conceito que aprendemos cedo na vida, o de legado. Podemos morrer fisicamente, mas algo será deixado para trás. Talvez a própria vida exista apenas com este propósito. “Plante uma árvore, escreva um livro, tenha um filho”.

Vivemos retroativamente. O presente morre a partir do momento que nasce, boa parte dos sentimentos humanos existe com um delay – a ideia de relembrar de um momento feliz e sorrir novamente.

A morte de Satoru Iwata, ex-developer e presidente da Nintendo, veio como um choque e impactou meu emocional de imediato. Nesse caso os momentos felizes resultaram em algo diferente. Em choro. Por uma pessoa que nunca vi, que conhecia por notícias e vídeos, que nunca soube da minha existência.

Uma morte que senti numa escala pessoal. Aquela pessoa interferiu diretamente na minha vida. O diálogo que tive com Satoru Iwata não foi direto, foi por meio de seu trabalho e suas ações.

Criamos porque não temos o alcance de todos. Nossas obras criam uma relação direta com o mundo no nosso lugar. La Fontaine tem seus conceitos morais contados para crianças até hoje por meio de suas fábulas, mais de trezentos anos após sua morte.


Iwata não cresceu com o sonho de fazer jogos. Seu interesse maior era pela computação e, procurando utilidades para seu conhecimento, começou a produzir pequenos jogos para amigos próximos. Adoraram. E assim o jovem programador se encantou com a ideia de produzir mais daquilo numa escala maior. Tornou-se game developer.

Era exímio no que fazia, um dos melhores. Produziu títulos de grande qualidade. No entanto, não conseguia vencer de um certo alguém. Um tal de Shigeru Miyamoto, criador de Mario e Zelda. O mais popular. Mesmo com o gameplay menos travado, com a tecnologia superior, mesmo com mais conhecimento técnico. Iwata não conseguia superá-lo.

Revelou, anos depois, que graças à rivalidade que sentia em relação a Miyamoto, entendeu o principal diferencial entre eles e o motivo da diferença de popularidade entre seus títulos: a criatividade. Julgava a imaginação de Shigeru “maior” e seus jogos refletiam isso. Iwata entendia-se como um homem dos números, mas passou a respeitar profundamente o lado artístico. Usou seu conhecimento de apoio para as ideias que lhe atraiam.


Um dos maiores exemplos é Earthbound. A emoção transmitida pelas palavras de Shigesato Itoi, criador da série Mother, não se traduzia num jogo funcional até sua intervenção. Reprogramou Earthbound por completo e salvou o desenvolvimento do projeto. Também não deixou de aprender algo com a experiência. Um dos slogan da série era: “um jogo para adultos, crianças e jovens mulheres”. Iwata revelou seu fascínio por essas palavras e o quanto as carregou futuramente na presidência da Nintendo.

Aprendeu a necessidade da união de diversos talentos, de diferentes pessoas. Tecnologia, ideias, acessibilidade. Tudo de alguma forma se conectava.

Aí que a obra fala pelo autor. Satoru Iwata promoveu o Nintendo DS e o Wii como plataformas para todos, sejam homens ou mulheres, adultos ou crianças. Repetia que encarava todos apenas de uma maneira: como jogadores.

Sua filosofia era vista nas decisões da empresa. Consoles que não concorriam diretamente no poderio tecnológico com os rivais comerciais, a forte resistência ao mercado de jogos baratos para mobile, a criação de mídias alternativas próprias para informar os fãs.

Suas ações talvez não se encaixem no “escrever um livro”. São mais similares ao “plantar de uma árvore”. Iwata serviu como estrutura às ideias que admirava e amava. As protegeu e regou, mas queria que nós, jogadores, colhêssemos os frutos.

Sou fã de muitos jogos nicho não tão populares, mas nunca teria chegado a eles sem uma porta de entrada. No meu caso, pelos jogos do Mario. Mas muitos começaram no Wii ou no DS. Gerações novas conheceram a mídia por meio do balançar de um controle que equivalia à raquetada numa bola de tênis, assim como um dia eu entendi que o botão A era a representação real do pulo daquele curioso encanador.

Não sei se é justo dizer que nosso legado nos imortaliza. A morte é natural, mas é muito presente numa escala pessoal. Quando Neil Armstrong pisou na lua e disse “um pequeno passo para o homem e um grande passo para a humanidade“, ele colocou seu corpo físico – sua presença ali – como uma ferramenta para algo maior, um bem geral.

Não existe uma fórmula mágica de viver. Há gente feliz sozinha, há gente feliz lutando pelo que acredita. Mas vejo uma beleza especial em transformar-se numa ideia, num conceito.

No dia treze de julho de dois mil e quinze percebi que nunca mais teria a chance de conhecer Satoru Iwata. E não preciso. Conheci as ideias que ele queria que as pessoas o conhecessem por.

Se hoje chorei ouvindo o tema de Balloon Fight, uma de suas co-criações, fico ansioso para o futuro próximo no qual possa escutar essa música e ter a lembrança de sua vida novamente mais forte que a do seu passar. Sorrirei.

Dimentioluc é um apreciador da cultura japonesa. Eclético, é fã tanto de robôs gigantes quanto de meninas tomando chá. Só abre um espaço especial no seu coração para uma certa empresa de jogos de inicial N. Opiniões (não) imparciais.

Deixe um comentário

Seja o Primeiro a Comentar!

Notify of
avatar
wpDiscuz
%d blogueiros gostam disto: