FICÇÃO INTERATIVA: VISUAL NOVELS SÃO MAIS QUE ESCOLHAS

Um dos mais antigos tipos de jogos de computador, Text Adventures são os precursores de um gênero no qual a interação com jogador se desenvolve apenas com textos escritos, inputs de comando e, acima de tudo, a imaginação do jogador. O gênero, que mais tarde evoluiria para Graphic Adventures, jogos em que a percepção visual substitua a necessidade de comandos para ações simples e introduzia a mecânica de point n’ click, também conseguiu influenciar o outro lado do globo.

Por volta de 1981, Yuji Horii, mais tarde conhecido por ter criado a maior franquia de JRPGs de todos os tempos, Dragon Quest, tomou conhecimento do gênero ao ler em uma revista sobre jogos de PC. Notando que o mercado de jogos japonês sofria por uma carência de jogos assim, decidiu criar o que se tornaria o título mais influente e que definiria o gênero mais tarde conhecido como Visual Novels: The Portopia Serial Murder Case.

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Desenvolvido por Yuji Horii e publicado pelo Enix (atualmente Square Enix) para NEC PC-6001 e posteriormente para Famicom (NES) pela Chunsoft (atualmente Spike Chunsoft), Portopia utilizava de comandos de ações predeterminados para investigar o caso de assassinato do líder de uma organização de empréstimos. Com uma mecânica relativamente simples, Portopia mostrou-se como um jogo narrativo, provido de um enredo bem escrito e desenvolvido, além de dramas maduros e personagens com motivações bem definidas, provando que havia um mercado para jogos que não dependiam apenas de uma mecânica dinâmica. O jogo também serviu de influência ao aclamado Hideo Kojima (criador da série Metal Gear Solid) na criação do seu adventure Snatcher  para Sega Saturn, PSX e entre outras plataformas.

Por outro lado, outro nome ganhava renome por sua proficiência em programação e posteriormente trabalharia na Enix ao lado de Yuji na criação de Dragon Quest. Koichi Nakamura teve seu talento reconhecido ao ganhar um concurso realizado pela Enix, ainda como estudante do ensino médio, com o jogo Door Door. Ainda na sua faculdade, Nakamura decidiu criar sua própria companhia com um grupo de amigos: Chunsoft. Cunhando o termo Sound Novel, a Chunsoft criou títulos com foque em uma narrativa mais madura, utilizando de imagens e vídeos em live-action, além de cenários 3D. Títulos como Machi e Kamaitachi no Yoru (recentemente lançado no ocidente com o título Banshe’s Last Cry para smartphones) serviram de inspiração e base para vários jogos do gênero que surgiram posteriormente com o seu sucesso.

Kamaitachi no Yoru (Banshee's Last Cry), Machi e 428
Grandes títulos da Chunsoft: Kamaitachi no Yoru (Banshee’s Last Cry), Machi e  428

Com um mercado predominante em PCs, devido a sua simplicidade, vários jogos do gênero começaram a surgir pelas mãos de fãs. Os chamados doujinshi games eram vendidos em eventos e muitos dos famosos títulos do gênero nasceram desse amadorismo. Títulos como Tsukihime e Fate/Stay Night, pertencentes ao grupo Type-Moon, se tornaram títulos consagrados e fizeram um enorme sucesso, com ambos ganhando versões animadas (embora a existência de um deles seja questionada). Pela seu mercado informal e uma plataforma sem restrições de publicação,  nasceu também um mercado para títulos com narrativas maduras e temas sexuais, também conhecidos como eroges  –  com os títulos da Type-Moon sendo exemplos, embora existam versões censuradas.  Outros títulos como Higurashi e Umineko no Naku Koro Ni e da companhia Key (Air, Clannad, Kanon)ganharam grande fama entre os fãs do gênero e fora deles.

Foi através dessas séries populares, em sua boa parte traduzidas por fãs, que Visual Novels encontraram seu caminho por aqui e firmaram seu público nicho. Com uma narrativa extremamente extensa, um grande número de diálogos e opções que alteram e criam o rumo da história, VNs mostraram que conseguiam trabalhar enredos e personagens de forma mais complexa.

Ever17, da série Infinity. Kotaro Uchikoshi, conhecido pela série Zero Escape, é um dos escritores por trás.
Ever17, da série Infinity, é uma das Visual Novels mais consagradas no ocidente. Kotaro Uchikoshi, conhecido pela série Zero Escape, é um dos escritores por trás.
Embora devido ao seu estilo de narrativa boa parte das Visual Novels sejam lineares, com a implementação do sistema de rotas, há casos que conseguiram fugir desse padrão. O clássico e bastante influente YU-NO da ELF permitia o jogador viajar entre várias dimensões paralelas e marcar pontos de retorno em ramos divergentes do plot, além de um mapa para guiar o rumo traçado entre eles pelo protagonista.
O clássico YU-NO
O clássico YU-NO

Nos últimos anos, vários jogos tomaram elementos de Visual Novels e implementaram no seu gameplay. Entre eles, temos casos notórios como os da franquia Ace Attorney, a série de JRPG Persona e a série de jogos de luta Blazblue, que expandem esses elementos e os transformam em um sub-gênero.  O gênero, que antes tinha pouca popularidade no ocidente, entrou em ascensão e mostrou que havia um mercado para eles além do Japão.

Persona 3 e 4.
Persona 3 e 4

Derivado da franquia Shin Megami Tensei da Atlus, Persona é um dos RPGs mais famosos nos dias atuais. Utilizando de uma mecânica de turnos típica de JRPGs e um sistema de dias, implementadas a partir do terceiro jogo, na qual o jogador pode escolher o que fazer nos seus horários vagos durante um ano, Persona conseguiu trazer atenção à série SMT e torná-la uma das franquias de JRPGs mais conhecidas, ao lado de Dragon Quest e Final Fantasy. O terceiro jogo também implementou o sistema de Social Links, sistema similar ao de rotas em visual novels, no qual o protagonista cria um vínculo com um personagem e pode nutri-lo no decorrer do jogo, afetando não só a relação com os personagens da party mas também NPCs. Também similar a uma visual novel, os jogos oferecem uma grande quantidade de opções de fala que podem alterar o rumo final da história.

Phoenix Wright: Ace Attorney
 Phoenix Wright: Ace Attorney
Nascida no GameBoy Advance, a série Ace Attorney só ganhou notoriedade no ocidente quando seu remake para Nintendo DS foi localizado. Conhecido por seus personagens excêntricos e seu humor escrachado, os jogos misturam elementos de adventure e visual novels em um jogo de acusações e defesa na corte entre um advogado e um promotor. No controle de um advogado novato, o jogador precisa buscar pistas e testemunhos para defender seu cliente no tribunal. Com um setting inusitado e o gameplay único, Ace Attorney cativou um grande número de fãs no ocidente e mais uma vez provou que jogos pesados em diálogos possuem um mercado ainda carente por outros do gênero por aqui.
Por outro lado, Visual Novels “puras”, e que não sejam eroges, não são tão populares nos dias atuais no Japão.  No meio há uma saturação de títulos, o mercado não consegue se sustentar apenas na jogabilidade simples de ir passando o scroller em textos. E é dessa falta de popularidade que nasce a necessidade por acrescentar elementos a mais no gênero. Dessa vez, pegando emprestado de outros gêneros, surgem Visual Novels híbridas que não são simples escolhas.

Danganronpa: Boa Sorte Evitando Spoilers na Internet.
Danganronpa: boa sorte evitando spoilers na internet.
Criado pela Spike Chunsoft, Danganronpa é uma série, em muitos sentidos, únicas. Com uma premissa similar à Battle Royale e utilizando de arquétipos de tropes de animes e mangás, com um grupo de estudantes presos numa escola e sem escolha a não ser matarem uns aos outros para escaparem, os jogos são uma mistura de violência arbitrária e um visual pop e excêntrico – cunhado como “psycho-pop” pelos criadores.  Numa jogabilidade similar à Ace Attorney, na qual o jogador recolhe pistas e testemunhos para descobrir quem é o assassino, os jogos também utilizam de elementos de jogos de ritmo e dentre outros gêneros para criar um estilo único de gameplay. Seus personagens coloridos e com personalidades distintas e seu enredo cheio de mistérios e reviravoltas fez com que a franquia ganhasse um enorme grupo de seguidores e achasse seu caminho até o ocidente.
Da série Zero Escape: 999 e Virtue's Last Reward
Da série Zero Escape: 999 e Virtue’s Last Reward

Outra produção similar da Spike Chunsoft, a série Zero Escape é uma das mais famosas do gênero no ocidente. Seu enredo complexo, com cada ação e escolha do jogador influenciado no rumo da história e criando diferentes rotas, além de seus inúmeros puzzles, fez com que a série conseguisse ganhar destaque entre outras Visual Novels. O primeiro jogo, 999,  conta a história de um grupo de nove pessoas presos em um navio, emboscadas em um jogo de vida e morte, com a colaboração entre eles sendo essencial para sua fuga. Sua sequência, Virtue’s Last Reward, segue o mesmo estilo narrativa com um novo grupo de pessoas. Embora tenha feito pouco sucesso no Japão, a série ganhou um grande número de fãs no ocidente e seu anteriormente incerto terceiro e último jogo foi recentemente confirmado como em produção, com o título Zero Time Dilemma.

O mercado de Visual Novels hoje se encontra em expansão no ocidente, com vários títulos sendo localizados devido facilidade para aquisição legal de jogos para PC com plataformas como o steam. Ainda é, embora, incerto se realmente existe um público grande o suficiente para elas no ocidente, seja pela a ausência de uma jogabilidade propriamente dita ou por conflito cultural, visto que a maioria utiliza de um estilo gráfico com inspiração na cultura pop japonesa de animes e mangás e seus tropes, além da taxação generalizada como jogos pornôs pelo o grande números de eroges no mercado. Talvez sejam raros os casos de jogos do gênero que façam sucesso, mas séries como Danganronpa e Zero Escape provaram que a voz dos fãs ainda pode ser ouvida se for alta o suficiente.

Sekai Project, uma das principais publishers americanas responsáveis pela localização de Visual Novels no ocidente.
Sekai Project, uma das principais publishers americanas responsáveis pela localização de Visual Novels no ocidente.

Visual Novels traçaram um grande caminho até chegarem onde se encontram atualmente. Embora seja um gênero conhecido por poucos, os seus fãs são fervorosos por reconhecerem o potencial do gênero e  complexidade dos seus enredos. São narrativas que conseguem explorar a premissa e seus personagens ao máximo. Implementando elementos de gameplay diversificados, o gênero tenta ser mais que apenas opções, mas, no fim, o que sempre fez elas serem únicas foram sua narrativa e a capacidade de ir além do que outras mídias são capazes, criando uma nova forma de strorytelling.

Defensor da indústria de animação japonesa atual e de todos os mercados de nicho, Overkilledred luta contra a desinformação passada pelas mídias especializadas em cultura pop e tenta salvar o público da alienação.

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