“AH, É JAPONÊS DEMAIS”

Tiki 01Padrões

Nas saudáveis e sempre receptivas fanbases de vídeo jogos e animação japonesa é comum que escutemos idealizações de como essas sagradas mídias deveriam ser, como afirmado no texto anterior deste blog. “Eu conheci uma mídia de uma forma, é essencial que ela se mantenha fiel à idealização que eu tenho dela em seu formato perfeito e ideal”.
Nesses embates deliciosos de ideias também é normal a argumentação: “deixe de ser weeaboo”.

Weeaboo, para quem não sabe, é um termo utilizado para se referir aqueles que preferem a cultura japonesa à cultura própria de seu país. Uma palavra chave para desmoralizar o argumento opositor, é afirmar que ele não possui senso crítico ou capacidade de apreciar obras de outros lugares que não o Japão. Nada como um ataque ao ethos.

Dito isto, é engraçado considerar a utilização desse termo em muitas situações em relação às mídias nipônicas. Reclamar da falta de opção da dublagem original de um jogo? Weeaboo. Gosta de slice of life? Weeaboo. Consome jogos como Neptunia? Weeaboo!

proibido gostar
Proibido gostar

Por bem ou por mal, recebemos jogos eletrônicos diretamente dos americanos. Não receberemos o produto em português na grande maioria das vezes, ainda mais falando de jogos japoneses. Não o teremos traduzido ou dublado na nossa língua mãe, ok. Então tudo bem querer escutar a dublagem original? Não. Se há a dublagem americana, é errado não utilizá-la, não seja um weeaboo.

Padronizamos o aceitável como o inglês, embora aquele produto tenha sido produzido e pensado em japonês. Provavelmente a equipe de produção teve mais contato com os dubladores originais, então qual o problema de querer o original, ainda mais considerando que não somos americanos também? Se a preferência em filmes é assistir no áudio original por que não o mesmo em jogos?

dublador profissional
Dublador profissional

No caso do slice of life, é o caso do “o moe está matando a indústria e moe é ruim”. Pra começar, não está matando nada. Ninguém diz que sitcoms estão matando as séries de televisão. Ainda falando de sitcoms, muitas se focam em fazer piadas referentes ao estilo de vida americano e à cultura pop ocidental.

Dito isto, é normal que gente que consuma mídias japonesas vá preferir humor relacionado a elas. É o que essa pessoa consome. Ela pode até não viver no Japão, mas conhece obras de lá. Piadas sobre Kamen Rider em Haiyore! Nyaruko-san podem gerar para essa pessoa o mesmo efeito que referências de super herois em The Big Bang Theory para um fã de quadrinhos.

kr flash

O mesmo pode ser dito de jogos como Hyperdimension Neptunia. Um dos grandes atrativos da série são as piadas com a indústria de jogos, partindo de um ponto de vista oriental. Gags sobre a Nihon Falcom, podem não fazer sentido para a maioria das pessoas, mas fãs de JRPG e nichos podem se divertir com elas. Quantas pessoas não ficam felizes com o sentimento de nostalgia gerado por muitos indie retrô pela similaridade deles aos seus jogos preferidos do passado? É um sentimento similar de reconhecimento daquilo que você gosta.

É assim que empresas de videogames são

Evolução da cultura
Outra implicação comum é o ataque direto ao que não se gosta. A série de RPG tático da Nintendo, Fire Emblem, é um grande exemplo disto. A franquia foi criada no Famicom, em 1990, e se tornou um grande hit em seus país natal, ganhando várias sequências em diversos consoles da desenvolvedora.

No entanto, apenas em 2003 a série ganhou seu primeiro lançamento em solo ocidental. Foi aclamada e se tornou um título nicho da Nintendo, mais famosa por blockbusters como Mario e Pokémon. A fanbase estava ali, mas não movimentava tantas vendas e o desenvolvimento de um jogo existe já se pensando no lucro. Fire Emblem Awakening, para o 3DS, foi produzido com um ultimato: “façam esse jogo valer o investimento ou focaremos em produtos mais populares”. Algumas mudanças como modos para jogadores casuais e sistemas mais simples de relacionamentos tornaram o jogo num sucesso comercial e alavancou a franquia, tornando-a maior do que nunca. Muitos dos fãs antigos sentiram uma traição. O jogo agora era “anime demais”, “muito weeb”.

Ocupada destruindo sua franquia favorita

O que seria “ser anime”? Anime é animação japonesa. Ser anime então seria implicar que a franquia se curvou às trends dos anime? E o que poderia ser isso? Ah… o moe, o ecchi, o fanservice. Eles de novo…

Hora de defender novamente esses pecados capitais que tanto insistem destruir tudo que há de bom na gloriosa terra do sol nascente cuja maioria das pessoas tanto insiste em regrar. Comuns as análises sobre períodos históricos específicos que envolvam a relação daquela sociedade com a arte que produzia. Aleijadinho e o barroco brasileiro são tratados como a porta de entrada para estudos do Brasil colonial, como é ensinado na escola. A adaptação do europeu ao brasileiro – a busca por uma identidade própria – é visto tanto nas antigas igrejas mineiras como no modo de vida de um povo tão distante de sua coroa. A sociedade e a cultura ao nosso redor moldam o que produzimos.

Poucos anos antes do lançamento do primeiro Fire Emblem, os primeiros Dragon Quest e Final Fantasy foram lançados com grande sucesso no Japão. A própria Nintendo precisava de uma franquia do tipo. Um mundo medieval e mágico com herois lendários empunhando espadas contra dragões e emissários do mal.

O nascimento da franquia se deu da necessidade da empresa possuir um título do tipo. A arte era similar aos outros jogos da época e, sim, pegava o estilo artístico das animações da época. Ao longo dos títulos a franquia foi se adaptando, mas nunca perdeu seus cabelos coloridos, olhos grandes, bishounens e bishoujos.

Not anime

É entendível que pessoas desgostem de mudanças em obras com as quais já se familiarizou, mas é um processo comum de evolução. O que fez Fire Emblem popular em 1990 talvez não permitisse a existência do jogo no ano de 2015. Conceitos foram mantidos, mas os desenhos seguiram a evolução natural do estilo artístico.

Fire Emblem não se “tornou anime”, se isso implica em “ficar japonês demais”. Sempre foi japonês, são pessoas de lá que o produzem, e o desenvolvimento do jogo vai refletir as mudanças culturais e sociais daquele país.

um pouco mais legal o do Fates, né
Um pouco mais legal o do Fates, né

Variedade
São muitos exemplos desse processo de criticar a “niponização” das mídias japonesas, como se antes fossem feitas com o foco no exterior. Reclamar dos Persona modernos pela presença dos elementos de dating sim e a trilha sonora j-pop e achar que isso tira o foco do que “realmente” Persona era é um grande equívoco. Sempre foi uma série focada em temáticas como adolescentes, inseguranças pessoais, a pressão da sociedade, etc. O jogo só se adaptou aos tempos, hoje é mais comum um garoto como Yosuke de P4 do que um visual-kei like como Eikichi de P2.

Persona 2 nada anime
Persona 2: nada anime

Se animes e jogos japoneses serem japoneses for algo tão ruim assim para você, ótimo. É questão de gosto. Provavelmente você achará obras que te agradem mais vindo de outros lugares! Temos acesso à inúmeras culturas diferentes. Consumir arte de outros países é conhecer um pouco mais das nossas diferenças e semelhanças. Um olhar crítico é bom sim, não precisamos aceitar tudo com a desculpa de “ah, é outra cultura”. Mas desprezar tudo que não seja similar ao que conhece também é um desperdício. Há um motivo daquilo ser daquela maneira. Gostaremos mais de algumas coisas e menos de outras, é normal. Só espero que você não implique que The Witcher é polonês demais, por favor.

Deixe um comentário

3 Comentários em "“AH, É JAPONÊS DEMAIS”"

Notify of
avatar
Sort by:   newest | oldest | most voted
Korwin
Visitante

“Só espero que você não implique que The Witcher é polonês demais, por favor.”
Mas o Kotaku já reclamou isso. :v

dimentioluc
Visitante

Kotaku sempre rápido no gatilho.

Edungeon
Visitante
“Japonês demais” é uma reclamação que não faz sentido em diversos níveis mesmo. Primeiro falam como um problema, enquanto eu acho que cada cultura dar a sua interpretação pessoal de um gênero é daquelas coisas BOAS PARA TODO MUNDO. A contribuição para os videogames da ótica Japonesa é inestimável, além da Coréia, da Americana, da Canadense, Francesa, etc. Cada país reinterpreta, cria e molda gêneros a experiência pessoal do lugar e eu, como consumir, tenho mais chances de descobrir jogos que nem poderiam existir!! Quanto mais variedade melhor, por favor. E segundo, que quem reclama disso normalmente parte de uma… Read more »
wpDiscuz