A REINVENÇÃO DOS CLÁSSICOS: MAIS QUE UM REMAKE

A indústria está morrendo, disse alguém como uma resposta à tantos remakes, sequências, spin-offs ou pela falta de qualquer originalidade hoje em dias em diversas mídias. Essa tendência, entretanto, aparenta ser também uma resposta ao consumidor atual. O que faz franquias de jogos como Call of Duty e Assassin’s Creed terem tanto sucesso na repetição da mesma fórmula? Talvez simplesmente o quão estranho soa a ideia de não sair um ou dois desses jogos por ano. O consumidor não escolhe o que consome; e sim a mercadoria o escolhe. A saturação do mercado talvez seja uma simples resposta à demanda exorbitante de produtos que precisam existir, porque fazem parte do imaginário coletivo, porque são uma necessidade imposta.

Na cena dos quadrinhos, a migração em massa para o cinema parece ser a nova tendência, ou talvez a evolução natural. Com o sucesso do universo cinematográfico da Marvel, o poder de ditar o que é popular parece estar nas mãos deles. Um super grupo de heróis entra para um dos filmes com a maior bilhetaria de todos os tempos? Então por que não anunciamos o nosso, pensou a DC com o anúncio do filme da Liga da Justica e a Fox com o remake do Quarteto. E que tal um super grupo de anti-heróis? O sucesso de Vingadores não foi nenhuma surpresa, mas um filme com personagens C como Guardiões da Galáxia (que amam ressaltar que ninguém leu a sua HQ) parece ter sido, mesmo embora siga uma fórmula consagrada com Star Wars. Mas o que importa é que filmes como Esquadrão Suicida e um possível filme do Sexteto Sinistro estejam a caminho. Um mercado que antes parecia ser limitado apenas aos heróis carro-chefe de suas respectivas editoras parece ter provado que consegue fazer boas histórias com personagens desconhecidos para o grande público. Consequentemente, uma line-up de futuros filmes de super-heróis foi anunciado até 2020, com títulos que não só são protagonizados por personagens menores, mas que também olham para outros públicos, tais como Capitã Marvel e Mulher Maravilha, e Pantera Negra e Cyborg.

E o que isso faz dos quadrinhos? Tanto a Marvel quanto a DC usam suas novas linhas editoriais, respectivamente Ultimate e Novos 52, como fonte de inspiração para seus filmes, que consequentemente absorve elementos deles, num tipo de relação simbiótica. É algo compreensível e sensato, já que um novo grupo de leitores foi apresentado através do cinema e que esperam ver nos quadrinhos apenas o que viram nele. Mas talvez como uma consequência de não ter tido tanto sucesso quanto a sua concorrente, a DC anunciou o fim da sua nova linha e um suposto unboot, o que aparenta ser um retorno as origens clássicas de seus heróis ao mesmo tempo que criam novas storylines. A Marvel, por seu lado, anunciou o fim de todos os seus universos e tem planos de re-lançar sagas clássicas como Guerra Civil. A jogada da Marvel aqui parece um tanto óbvia: resgatar suas sagas mais consagradas para prepararem o terreno à futuras adaptações, enquanto um novo universo, provavelmente mais embasado nos seus filmes, toma forma.

O futuro dos quadrinhos mainstream como uma mídia independente e que explora a imaginação dos seus autores não parece muito esperançoso. Num emaranhado de reboots, novas origens e re-tale de sagas para atrair novos leitores, forma-se um ciclo vicioso no qual não se cria nada novo.

O cinema, por sua vez, retorna cada vez mais à franquias clássicas. Filmes como Robocop, Jurassic World, Mad Max, Star Trek e até mesmo uma nova trilogia de Star Wars. E afinal, o que impede que esses filmes sejam feitos? São franquias e personagens que estão no imaginário das pessoas, que fazem parte da cultura pop e são apreciados até hoje. Um novo público está sempre surgindo, o que significa um novo mercado para essas franquias, ad infinitum.

O quão realmente estranho soa um novo Indiana Jones? Talvez se envolve-se um Shia Labeouf, mas não parece (nem nunca  pareceu) um bom investimento. Um Chris Pratt parece ser a cara das novas roupagens. O ex-gordinho de Parks and Recreation agora parece ter outro tipo de peso: ser o Harrison Ford dessa geração.

Falando em Harrison Ford, Star Wars está para acontecer de novo com ele fazendo parte. Mas não é isso que realmente chama atenção nessa nova trilogia dirigida por J.J Abrams, o herdeiro de George Lucas e Spielberg. E sim o fato do teaser trailer ter aberto com o que parece ser um dos seus protagonistas, um homem negro vestido de stormtrooper, vivido pelo ator John Boyega. Mais interessante ainda, um dos seus protagonistas é uma mulher, vivida pela atriz Daisy Ridley. Star Wars agora não só tem o peso de atingir um novo público, mas de representar minorias como uma forma de se reinventar. A nova trilogia talvez seja o que a velha-nova trilogia devia ter sido, tomando mais riscos em expandir uma franquia estabelecida.

A tendência de remakes também é comum no mercado de animação japonesa. Nos últimos anos, clássicos como Space Battership Yamato, Captain Harlock e obras do estúdio Tatsunoko como Gatchaman, Casshern e recentemente Yatterman, o qual faz parte da sua franquia Time Bokan, ganharam novas adaptações. É interessante notar, entretanto, que são obras que não seguiram apenas o formato dos seus antecessores, mas que sim tentam criar novos conceitos partindo de uma visão moderna ou mais complexa. São obras que mostram que remakes conseguem trazer uma nova vitalidade para séries datadas e, até segunda ordem, mortas e esquecidas. Duas que chamam bastante atenção no conceito que trabalham são Gatchaman Crowds e Yoru no Yatterman.

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Gatchaman: Crowds é um anime de 2013 produzido pelo o mesmo estúdio criador da franquia, Tatsunoko, e dirigido pelo consagrado diretor Kenji Nakamura, conhecido por obras como Mononoke e Kucho Buranko. A premissa é relativamente parecida com a do original: um grupo de jovens é reunido para combater uma ameaça alienígena. Mas enquanto o original segue um padrão mais de séries sentais, com o grupo de protagonista lutando constantemente contra o grupo de vilões estabelecido, Gatchaman: Crowds impõe uma visão nova não só para série, mas para o gênero de super-grupos. O estopim disso tudo é sua protagonista, Hajime Ichinose, uma garota excêntrica e energética que após ser escolhida por uma suposta entidade que se proclama guardião da terra, à ser um dos Gatchaman, questiona o seu objetivo vago de lutar contra seres que aparentam ser inofensivos e o porquê de lutarem uma guerra secreta, o que a impulsiona eventualmente a revelar sua verdadeira identidade.

Ambientando em uma sociedade na qual tudo é ditado por um aplicativo super popular de celular chamado GALAX, os questionamentos de Hajime são amplificados pela tendência das pessoas de se manterem conectadas e de usarem tal aplicativo para criarem um sistema no qual todas possam ser heróis da sua maneira. Os Gatchaman são heróis datados nos dias atuais. São meros símbolos para uma sociedade que tem seus meios para se auto-defender. Dá pra encaixar um certo ditado chinês aqui, mas a ideia já ficou clara. Não se trata mais de uma guerra pessoal de heróis e vilões, mas sim de uma sociedade que coopera consigo mesmo.

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Yoru no Yatterman é a a mais nova tentativa dessa tendência. Atualmente em exibição, a série comemora os 40 anos da franquia a qual faz parte, Time Bokan. A franquia que teve seu inicio com a série de mesmo nome, gerou vários derivados no decorrer dos anos, mas o seu mais famoso com certeza foi Yatterman. Seguindo a mesma fórmula dos seus semelhantes, misturando comédia com aventura, Yatterman foi a série mais longa da franquia, chegando a ganhar um live-action e um remake em 2008. Conhecido por seu humor irreverente com muitas paródias e seu grupo de vilões atrapalhados à la Equipe Rocket, um grupo de ladrões chamado Dorombo, Yatterman sempre foi uma série com poucas pretensões além de divertir quem acompanhe.

Yoru no Yattermanpor outro lado, como o nome implica (Yatterman da Noite) mostra um lado mais sombrio e deprimente da relação entre os heróis e seus vilões. Os protagonistas dessa vez são os descendentes do grupo Dorombo, que foram banidos para uma ilha assim que os Yatterman conseguiram criar um suposto reino utópico, o chamado Yatter Kingdom. Leopard, descendente da líder do grupo, Doronjo, cresceu acreditando que os Yatterman eram os seu heróis, mesmo após descobrir sua origem e sua sentença. Mas quando ela se vê forçada a sair da ilha e buscar ajuda para sua mãe doente, descobre que eles não são nem de perto o que ela imaginou. Com a ajuda de seus companheiros de exilamento, também descendentes de outros membros da Dorombo, Leopard decide buscar vingança por sua mãe indo até o Yatter Kingdom. O que encontram lá, entretanto, é apenas uma propaganda de governo bem efetiva, pois a sua população vive uma ditadura totalitária à la Coreia do Norte, onde seus habitantes precisam constantemente provar sua crença nos seus ídolos impostos, as supostas figuras messiânicas dos Yatterman.

O fascinante na série, embora, é que tudo é visto pelo ponto de vista de Leopard, uma garotinha de 9 anos, que tem como objetivo salvar aquelas pessoas e dar um peteleco nos Yatterman. É quase como se a sua inocência fosse o que trouxesse as situações cartunescas e nonsensical de se criar do nada várias bugigangas, assim como um macaco robô gigante ou um robô gigante da cabeça do Genghis Khan (e que ainda por cima referência o prato japonês com o mesmo nome). O drama pessoal de ter perdido a sua mãe ou o drama que o grupo presencia naquela sociedade é algo que nunca é deixado de lado, mas a série consegue balancear isso com o humor conhecido da franquia e criar algo que consegue emocionar mesmo em seu absurdismo.

A questão é que talvez a indústria não esteja tão morta assim. De fato, a tendência dela de querer cada vez mais gerar conteúdo é o que a leva a posteriormente se reinventar. Remakes e continuaçõs não são de tudo uma ideia preguiçosa. Por um lado, são apenas necessidades de consumidores que precisam do mesmo produto em novas embalagens. Por outro, um novo público toma conhecimento. E por mais outro, a obra em si consegue se beneficiar de novos conceitos em qual ela é moldada. Afinal, o nosso ambiente está sempre sofrendo mudanças, e certas obras só precisam segui-las para continuarem dando certo.

Defensor da indústria de animação japonesa atual e de todos os mercados de nicho, Overkilledred luta contra a desinformação passada pelas mídias especializadas em cultura pop e tenta salvar o público da alienação.

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[…] ser refeito pra um novo público e assim lucrar com ideias antigas. Já fiz um texto explicando como isso não é exatamente algo ruim e outro no qual disserto sobre a nostalgia como algo prejudicial na construção da representação […]

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